Tropeçando nos lábios de Emmanuelle Béart

Julho 2, 2008

Este ano o Festival de Cannes pôde finalmente contar com a nossa presença. Fomos numa sexta-feira, depois de um almoço à beira mar.

Chegamos pela praia. Que é, na minha opinião, sempre o melhor lado pra se chegar a um lugar.


Como não queríamos chamar a atenção, demos uma volta pelo cais até à extremidade do Palácio do Festival, tipo comendo o mingau pelas bordas, antes de chegar ao fervo da Croisette.


Na verdade, naquela hora a Croisettte ainda tava morna.



Já tinha ouvido alguém dizer, sob o risco de um raio cair sobre a cabeça, que a orla de Cannes parece um pouco com a de Santos. E olha a leoa da foto abaixo que não deixa o raio que partiu mentir. As crias que ela amamentava acho que foram parar no Gonzaga, onde há décadas, eu diria séculos, servem de cavalgadura para crianças.

Caminhamos pelo jardim até a lateral do tapete vermelho, onde se dá o desfile, entre duas arquibancadas de jornalistas.

De última hora, eles liberam a entrada em um bolsão a 10 metros da passarela. Ao lado da escadaria na entrada do palácio, um telão mostra as imagens do que acontece no tapete vermelho. Aos poucos, vão chegando fotógrafos, equipes de cinegrafistas e de tevê. A turma do gel e do silicone vem em seguida. A neo-peituda aí de baixo é famosa, mas não sei quem é não.

Desconhecidos com ar suspeito e roupa alugada aproveitam a ignorância dos jornalistas para fingir que são artistas. Assistimos a uma boa hora de anquinhas, queixos no ombro e beiçolas. Zé Bonitinho não ia fazer feio, nem a Serafina Palito.

Além de não ver nada, e tendo em vista o adiantado da hora, já íamos saindo de fininho quando a Emmanuelle Béart - finalmente, alguém conhecido! - apareceu dando show pros fotógrafos. No telão, parecia que ela ia pro lado direito enquanto os lábios iam pro esquerdo. Um descontrole. Ela, seguramente não dominava aqueles, digamos assim, lábios botocudos… que pareciam ter vida própria. Na hora, eu não lembrei de nada que a Béart tivesse feito. Tenho problemas de memória. Ela, pelo jeito, não, pois me deu até um tchauzinho.

O passeio em Cannes foi bom, mas eu sempre acho curto. Um dia eu volto lá.

Eu ainda não havia feito a conexão entre esse encontro com a Emmanuelle e uma coincidência ocorrida dias antes, num passeio a Ansouis (pronuncia-se o ésse final; soa quase como en Suisse), no Luberon. No carro com nossos amigos Marie Pierre e Bruno, entramos por um caminho entre Lourmarin e Ansouis, daquelas estradas pra um só carro, de mão dupla. Lembrei dos filmes Jean de Florette e Manon des Sources e ia perguntar se eles sabiam onde havia sido filmada a história quando alguém entrou com outro assunto e eu acabei não perguntando nada.

Em Ansouis, vimos uma exposição de flores e passeamos pela vila. 

 

Um artesão fazia pequenos vasos de barro no torno.

O marketing do cara é dar esses vasinhos de presente pra assistência e ele deu um pra Teté. Que adora vasos, cerâmica e artesanato. E, por que não dizer, adora também os pedriscos do caminho. Aí pintou uma idéia.

E não é que ficou bonitinho? A técnica dos desenhos com pedrinhas ela conheceu em Portugal. Foi, portanto, o provável início de uma influência lusitana na potterie francesa, com desdobramentos inimagináveis e que só poderemos aferir no futuro.

Encurtamos a caminhada, pra preservar o vaso e porque já conhecíamos Ansouis, e nossos amigos franceses nos propuseram ir a Vaugines, onde havia uma pequena igreja que, eles achavam, iríamos gostar.

No caminho, nos disseram que foi em Vaugines que filmaram Manon des Sources (ver também Jean de Florette). E eu não havia falado nada. Ainda boquiaberto com a transmissão de pensamento, chegamos à igreja da vila, que aparece na cena da revelação final da história, quando Yves Montand faz a gente lembrar de Marcello Mastroiani.

O banco de pedra, que se vê na foto abaixo, já conheceu portanto a bunda do Montand, à qual as nossas foram apresentadas por tabela.

Essas coincidências fazem a gente se sentir bem, né? A história é meio invertida, sem sentido cronológico como no bom cinema francês, porque só quando cheguei ao Brasil fui pesquisar sobre os filmes e descobri que a Emmanuelle Béart interpreta Manon e tinha na época uma boca linda, eu diria maravilhosa mesmo, destruída pelo progresso da ciência e pela falta do que fazer.

Não chegou a ser uma descobeeeerta, porque eu já havia visto o filme há muito tempo e conhecia a Emmanuelle, só não me lembrava de onde, como, quando e por quê. E isso é muito normal.


Baratas tontas zanzam pelas ruas de Paris

Junho 11, 2008

Nenhuma cidade no mundo foi tão cantada quanto Paris e quem faz muxoxo quando se fala nela pode ser alvo de olhares mortíferos que vão do irônico debochado ao atônito aterrorizado. Mas a verdade é que muita gente, mais do que eu posso acreditar, não vê nada de mais na capital francesa. E nem por isso merece ser apedrejada.

Naqueles remotos idos de 83, eu saí de casa uma noite, em pleno Boulevard Saint Germain, e caminhando ao lado de um casal de meia idade fui capturado pelo seguinte diálogo em português do interiorrrr (com aqueles erres pronunciados com a língua dobrada) de Sumpaulo: Mulher- Tamo andano, andano, andano i até agorrrra eu nu vi nada! Marido (cabeça baixa, ar de decepção) - Cê nu viu nada? Mulher- Nu vi nada! Prrra mim isso aqui é uma porrrcaria.

O acento caipira e a queixa ingênua e sincera da mulher deram vontade de rir, mas me contive, de pena daquele pobre marido que deve ter ralado o couro pra levar a dita cuja numa viagem que se pretendia inesquecível e romântica. Mas é assim, tem gente que não gosta de camarão e de bacalhau. E, pasmem, tem quem não goste de ovo, manteiga e de Paris, gostos que sempre acreditei devessem estar gravados no DNA humano.

Até há pouco eu tinha uma dúvida: qual a cidade de que eu mais gosto? Roma, Rio, Lisboa, Londres, Amsterdã, Firenze? Os 3 dias e meio que passei em Paris no último mês de maio resolveu de vez esta questão. Todas as concorrentes são ótimas, umas melhores nisto, outras naquilo, mas como cidade (eu digo a cidade inteira, o conjunto, como soma das partes), Paris é irresístível e imbatível.

Eu até entendo a impressão daquela mulher. Paris fica na Terra, não no paraíso. É uma cidade viva, tem bosta de cachorro pra todo lado, muitos mendigos, bebuns e gente fedida de cabelo sebento. 

Nem todos gostam da atmosfera de Babel. A metrópole que atrai todas as culturas. A multidão multiétnica e colorida, brancos, negros, orientais de todas as nuances. 

O metrô, personagem central da cidade, também pode ser assustador. Há estações fétidas, sujas, cheias de ratos. Multidões circulam nervosas e comprimidas naqueles tubos azulejados durante todo o dia. Atravancar o caminho de quem tem pressa é uma boa maneira de entrar em contato com a folclórica falta de educação do parisiense. Nas estações ou perdidos num corredor úmido e imundo,  músicos solitários tocam diante de um chapéu vazio de moedas.

Eu adoro essa zona. E entre todas as babéis que conheci, nenhuma tem edifícios, ruas, praças, avenidas, jardins, museus, vitrines e uma paisagem urbana de perder o fôlego, a cada esquina, como Paris. Sem falar dos restaurantes, das padarias, das charcuteries, das inacreditáveis seções de queijos e de vinhos dos supermercados.

Ficamos hospedados num hotelzinho (que descobri através do site Conexão Paris, da mineira Maria Lina, e sobre o qual vou escrever num breve e futuro post) situado no quadrilátero entre o Palais Royal, a Place Vendôme, a Opera e o Louvre. Quase esquina da rua Saint Honoré. Praticamente no coração geográfico, histórico e cultural da cidade. O que nos permitiu usar mais os próprios pés do que o transporte coletivo urbano para passear, inclusive à noite.

Não há muito o que planejar para uma estada de apenas 3 dias em Paris. Entre as ruas e o interior dos museus, optamos pelas ruas, que em Paris valem por todos os museus da maioria das cidades do mundo somados. A única exceção foi o Museu Rodin, que não conhecíamos e que tem grande parte dos seu atrativo nos jardins a céu aberto, repletos das esculturas do seu Augusto.

Ou seja, optamos por ficar como baratas tontas perdidas nas ruas de Paris.


No bico do Corvo

Junho 8, 2008

O Corvo sempre aparece com umas velharias no bico. Mas o Corvo é bico fino. Então sempre vale a pena botar na roda. Françoise Hardy é um ícone discreto dos anos 60. Rita Lee copiava o seu visual e o sussurro no cantar nos primeiros discos dos Mutantes. Fui olhar o site da gata e, passados 40 anos, …

… ela continua gataça. Sem botoque. Sem corantes. E francesíssima.

O youtube do Corvo vai embaixo


Mora, na filosofia…

Junho 4, 2008

A arapuca de todo turista é achar que conhece um país e um povo só porque esteve lá durante alguns dias. Eu não fujo à regra.

Tive, em 1983, um ano inteiro na Europa. Visitei cidades da Alemanha, Áustria, Grécia, Turquia, Itália, Holanda e fiquei 8 meses vivendo de bicos em Paris. Quando cheguei, não falava bon jour e achava que bon soir era a revelação de um estranho gosto dos franceses pela sudorese.

Aprendi um pouco da língua de Molière no tranco e sempre tenho a sensação de falar como índio de filme americano, misturando verbos no infinitivo em orações que se referem ao passado, além de ter durante muito tempo penteado cavalos (chevaux) e montado em cabelos (cheveux).

Depois de algumas viagens exclusivas a Portugal, ocasiões em que pudemos aprender um pouco a língua lusitana e afastar o risco de entrar na bicha errada, resolvemos agora fazer aquilo que nos cursos chamam de “imersão” e passamos um mês inteiro na França, em casas de amigos, falando sempre a língua nativa.

Como bom turista, acho que fiquei conhecendo os franceses um pouquinho melhor. Ao menos os que cruzei pelo caminho e a sociedade que a tevê, os jornais e as revistas revelam cotidianamente. Também aprendi um grande número de palavras novas, que prometo usar sempre que surgir a oportunidade.

Mas o que eu queria dizer, desde o princípio da enrolação, é que uma das especialidades dos franceses é inventar frases e definições que acabam por representar o caráter da cultura que constróem há centenas de anos. Nesta viagem que acabamos de fazer anteontem, terça, 3 de junho, eu me vi entre dois pensamentos que sustentam a sociedade francesa. A inscrição no porquinho da foto lá de cima e as três breves palavras que coroam o Hotel de Ville em Paris pra mim resumem o que há de melhor na França.


Toi, Jane; moi, Tarzan

Maio 17, 2008

Escrever neste teclado com as teclas embaralhadas faz com que eu me sinta como o Johnny Weismuller tentando passar uma cantada na mae da Mia Farrow (cujo nome a tempestade que acaba de cair no Luberon levou), orientado pela macaca Chita. Apos quatro linhas sem agudos e tils, e depois de uma encarniçada luta atras dos as, emes e outros bichos errantes, a chuva passou e eu continuo pendurado no cipo das proparoxitonas e oxitonas transformadas compulsoriamente em paroxitonas.

Se vocês (os circunflexos sao livres na França, como os elefantes asiaticos nos velhos filmes de Tarzan) levarem em conta que passei uma curta temporada no Loire atracado ferozmente com um IMac, cujo idioma cibernetico eu nao cheguei a penetrar, e que agora tento domar um laptop com zero de memoria no disco rigido (isso me faz lembrar alguem, mas nao lembro quem), vao me perdoar por nao ter feito um misero post alem deste amontoado de palavras com as silabas tonicas tomadas pela febre da vaca louca.

A chuva parou e surgiu um resto de sol das 8 da noite (?). Os efluvios do gigot de agneau, da torta de ruibarbo e do mix de queijos de vaca (equilibrada, espero) e de cabra do almoço se fazem sentir. Antes que subam à cabeça, sinto que é hora de dizer à bientôt a tous avec des gros bisous.

Grig-ha-bandolo!


Hello, goodbye!

Abril 26, 2008

O bom das viagens são os boas-viagens e as boas-vindas. Recebi dois boas-viagens da pontinha, além dos usuais, igualmente queridos. O primeiro foi o lançamento do livro O Ano da Lagartixa, do meu amigo Corvo Bêbado, que nas sociais atende pelo nome fictício de JR Fidalgo.

A última festa que eu havia ido em companhia do Corvo, ele não parava em pé. A força da gravidade era insuportável para ele. Sempre achei que fosse falta de músculos. Como eu, ele era mirrado. O lastro só foi adquirido com o andar da maionese (ela desanda, não é?). Pois eu ia dizendo que o Corvo evoluiu. Uma baita fila de gente para pegar o autógrafo, dar um abraço, tevê pra entrevistar, e ele permaneceu em pé. O tempo todo. Como um flamingo dos salares da Namíbia (tem salar na Namíbia? consultem vocês a wipedia).

 O outro foi da nossa fisioterapeuta e preparadora física, a profissional mais confiante e imaginativa do planeta, pois nos mandou um vídeo do Momix, pra gente ensaiar na viagem. Tirando a sutil ironia, tendo em vista que eu, reconheço, não sou tão forte quanto o dançarino do filme, e teria dificuldades em executar alguns movimentos, o sopro de alto astral é muito perfumado e foi plenamente absorvido.

Este blog sofre com a ausência de alguém que o atualize regularmente. Mas, de férias, de passeio pela França, maio inteiro, devo achar um computador conectado pra botar uns posts, ir mostrando umas fotos. De modos que - como diria a tia Manau - ficamos assim. Vamos na terça.  Deve tá frio, né?


A Lagartixa, pra derrubar as prateleiras e as estantes

Abril 2, 2008
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Quem freqüenta esta esquina já leu comentários ou alguma referência ao Ano da Lagartixa. Trata-se, para quem ainda não sabe, do título de um livro do jornalista JR Fidalgo publicado primeiro na internet, no blog do Corvo Bêbado, e agora chegando às livrarias. Eu sou suspeito pra falar da obra e do autor, pois sou fã do gajo desde quando ele ainda não tinha rabo e nem andava pelas paredes. Deixo a tarefa para outro fã do dito cujo, o também jornalista Mauri Alexandrino, de quem por sinal também sou fã, por conhecê-lo desde quando ele ainda andava pelas paredes. Basta clicar aqui e ler a resenha do Mauri e, quem sabe, aproveitar e fazer uma encomenda on line do livro.


Ratatouille, bouillabaisse e aioli

Março 31, 2008

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Todo mundo, ao menos os normais, já teve a sua fase de sexo, drogas e rock’n roll. O tempo passa, a lusitana gira, e graçazadeus mudamos os nossos interesses. Eu, agora, estou entrando numa fase ratatouille, bouillabaisse e aioli. Depois de abrir a minha mente nos anos 70 e 80, de um tempo pra cá resolvi abrir o aparelho digestivo. Como jamais me empanturrei (em demasia) com sexo, drogas e rock’n roll, afinal eu sou NORMAL, tampouco me empanturro com comida e bebida. Mas a fase, digamos assim, é de experiências gastro-sensoriais.

Ingerir substâncias que produzem bem estar e se deleitar com música, de preferência em lugares agradáveis, como em meio à natureza ou em ambientes serenos e aconchegantes, ao lado de pessoas amadas, são definitivamente o meu barato. E seu eu morrer disto, morro feliz.

Evidentemente, não estou aqui para fazer apologia de práticas perniciosas, nem do hedonismo. Ao contrário. Tudo o que quero é expandir os meus horizontes e ter uma vida saudável, dentro do limite do tolerável (ou seja, não me convidem para uma churrascada de tofu), e se possível conhecer, compartilhar o que sei e aprender coisas novas em lugares conhecidos ou diferentes e com gente do bem (não confundam com gente de bem, já que não há relação entre uma coisa e outra).

Estamos de malas prontas para um mês na França. É conseqüência natural da filosofia ratatouille, bouillabaisse e aioli.  Nos anos 60, os malucos iam passar fome em Katmandu, no Nepal, ou tomar banho de merda no rio Ganjes, na Índia. E viajavam semanas no Magic Bus, sem saber se chegariam, provavelmente não, através do Iraque, do Irã, do Paquistão.

Mais uma vez graçazadeus, naquele tempo eu queria mas não podia. Hoje eu posso, mas, por força do giro da Lusitana, a minha Meca está entre Paris, Vale do Loire e a Provence. O Magic Bus dos tempos das drogas no meu caso evoluiu para um Peugeot 206 com GPS dos tempos do leasing para estrangeiros. Para horror de um amigo, serão 30 dias pelos mais refinados congestionamentos europeus, garantindo o nível de stress adequado para quem pretende passar o resto do tempo ouvindo a cigarra cantar. Não sei se vocês me entendem.


Um clássico da minha íris

Janeiro 28, 2008

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Essa foto tá gravada na minha íris. É a Fortaleza da Barra, ou de Santo Amaro, que desde o século XVI guarda a entrada do estuário de Santos, a porta do porto. O pipoqueiro que me atendia, quando ainda mijava no berço e já comia pipoca, tinha ponto em frente, ou melhor, na avenida do outro lado do canal, na Ponta da Praia, porque a fortaleza fica na Ilha de Santo Amaro, Guarujá. De qualquer ponto das praias de Santos, se pode ver a velha fortaleza, encravada no morro, no meio do mato, sempre com um barco ou um navio passando em frente. A gente acostuma com as coisas e muitas vezes não percebe o que tem  frente aos olhos.

A velha fortaleza, como você pode ficar sabendo aqui, foi construída nos tempos em que Portugal esteve sob domínio da coroa espanhola e é irmã das muralhas de Cartagena, no Caribe colombiano. É também um vestígio fundamental do assédio que corsários e piratas exerciam sobre a nascente Vila de Santos, ainda um apêndice de São Vicente, mas estratégica por causa das águas calmas de seu berço marinho natural e porta de entrada para o interior a ser desbravado.

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A fortaleza ficou abandonada muitos anos e agora está nos trinques. Estive lá depois de muitos anos e é uma beleza ver que ela vai tão bem, com a realização de exposições e eventos. É, com certeza, um dos passeios mais bacanas pra quem vem a Santos. E para os santistas, que, como quase todo mundo, jamais fazem turismo na própria cidade.

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Pra ir até lá, é preciso pegar um barco na Ponte Edgar Perdigão, na avenida Saldanha da Gama, Ponta da Praia. A passagem custa R$ 1,80 e tem saídas a toda hora, que nem busum. Junto à fortaleza, há duas grandes comunidades, originariamente de pescadores, o que gera um tráfego intenso de embarcações durante todo o dia. A travessia dura 5 minutos, se não houver algum naviozão passando e levantando marolas.

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Estive lá há menos de 15 dias, uma terça-feira pela manhã, e o lugar estava vazio, só com os funcionários da administração e manutenção, jovens arregimentados nas comunidades vizinhas. Você, que obviamente não é cego, já viu o sol que tava. Com aquela muralha branca e o céu e o mar tão azuis em contraste, me senti em Santorini.

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Obviamente, era só Santos. Pra ser justo, Guarujá. Santos fica lá atrás, pra onde aponta o canhão.

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É um passeio muito mais barato e interessante do que o de escuna pela baía. Não tem balanço, dá pra fotografar o visual sem risco da foto sair tremida e fica-se livre do pagodão, da macarena e do axé no talo, top hits de 11 em 10 escunas turísticas. A foto aí de baixo não é só pra mostrar o veleiro, mas o edifício Enseada, em segundo plano, um dos dois projetados em Santos pelo controvertido e valorizado arquiteto autodidata Artaxo Jurado e que tem uma das vistas mais cinematográficas da orla, a partir das suas varandas.

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O casarão abaixo era a sede do forte.

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Dois canhões guardam a sua varanda. Dentro, funciona a administração do museu, salas de exposições e um mezanino onde são administrados cursos e outras atividades culturais.

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A Fortaleza da Barra, por sua importância histórica e arquitetônica, além da posição privilegiada na paisagem, é a jóia do Circuito dos Fortes, que reúne outras construções militares situadas na Baixada Santista.

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Ao lado da sede, a capela tem um mosaico em pastilhas de vidro de autoria do pintor nipo-brasileiro Manabu Mabe, um apaixonado pela fortaleza.

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Uma exposição com quadros abstratos de Mabe pode ser vista no local até o dia 28 de fevereiro, de terça a domingo, das 8 às 18 horas.

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A fortaleza está ligada por uma trilha na encosta do morro a uma praia que eu ia de vez em quando, numa época em que possuía longos cabelos louros. Outra encarnação, portanto. A praia do Góes tinha águas transparentes, quase sem ondas, uma lagoa morna. E a trilha tem ótimas paisagens, como esta aí em baixo, com os prédios da Ponta da Praia ao fundo.

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Entre o Góes e a fortaleza, tem uma prainha, que fiquei sabendo agora chama-se Cortadura. Ainda tem bom aspecto, como se pode ver.

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O melhor é ir fora do fim de semana, pra não enfrentar a muvuca.

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O tráfego no Canal da Barra é barra. Não é só catraia nem traineira, não. Tem transatlânticos e mega-cargueiros passando toda hora. Se olhar avião subir e descer já foi atração de fim de semana em Sumpa, ver o entra e sai dos navios pode muito bem servir de distração. Confesso que até hoje não cansei de ver o movimento e ouvir o rugido dos apitos (navio tem apito?).

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Pra ficar na real e não vender gato por lebre, é bom avisar que a água do estuário é uma porcaria. Tem tudo quanto é tranqueira. Se afastar os sacos e garrafas de plástico, abstrair dos seres invisíveis, e tiver um calor desgramado como nesse dia aí, dá até pra tomar um banho, mas isso não é, definitivamente, o forte, sem trocadilho, do nosso passeio. 

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A praia do Góes, dos meus tempos de condicionador, não existe mais. Nem vou mostrar, mas a ocupação é fim de feira total. A ida vale pela trilha (leve, de 10 minutos, sem subidas e descidas). Lá tem um atracadouro onde pára a barca que leva de volta. Fui a um boteco (Bar do Meio) beber água e não resisti a um comercial caiçara que tava saindo pros trabalhadores locais. Não posso ver peixe, vivo, morto, frito ou assado. Não resisti e mandei ver, num exemplar sabor óleo de soja. Com espírito viajante, dá até pra gostar, tendo em vista o lindo dia, o calor, a paisagem e a gula canina.

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A visita, incluindo tempo de navegação, a caminhada pela trilha, uma pausa para hidratação, sem almoço e banho de mar, não exige mais do que 2 horas.

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Ossos do ofício

Dezembro 18, 2007

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Cês tão vendo a foto desse osso aí? É da coluna vertebral de um camelo, ou dromedário, who cares? A minha fisioterapeuta cares… Ela foi à Tunísia, recentemente, e num passeio pelo deserto viu surgir do nada uma tenda. Ela fixou os olhinhos japoneses e suas papilas gustativas encheram-se de água: um tapete coberto por ossinhos e ossões. Tudo à venda. Juro que ela pareceu muito séria quando nos disse que aquele camelo - este, representado pelo osso roído da foto - a estava chamando no meio do nada. Entusiasmada, ainda nos mostrou a foto e apontou para um dos ossos, comentando: “Este ilíaco aqui era lindo!” De fato, vocês precisavam ver que ilíaco! Com I maiúsculo.

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O disco intervertebral (em detalhe, na foto acima) quase intacto do pobre ex-camelo - que segundo ela não tinha hérnia de disco, ufa! - foi a lembrança mais arrebatadora, além das centenas de fotos, que a minha amiga trouxe da sua passagem pela Tunísia. Vai guardar por toda a vida e deixar pros netos, que não sei como farão para contar aos filhos, os bisnetos, o que diabo a bisavó tinha na cabeça pra guardar um osso de camelo durante tantos anos. Eu a entendo perfeitamente.

É óbvio que ela também gostou das estupendas ruínas romanas espalhadas pelo país, da vida estranha no meio do deserto, da limpeza extrema das cidades e da segurança que aquele país inspira a quem viaja por ele. Ela amou tudo, inclusive os dias que, pobre coitada, passou em Paris antes de voltar, sem encontrar um só osso, uma mísera cartilagem que fosse, a não ser aqueles em exposição no Louvre.

Eu a entendo, porque em nenhum outro lugar do mundo o seu interesse por ossos, articulações e hérnias de disco seria tão plenamente satisfeito quanto no deserto da Tunísia, naquele mercado improvável de ossos de camelos. Ela pôde ali realizar o desejo louco de ter o seu próprio conjunto natural de vértebras com o disco preservado, além daquele que carrega desde o berço, mas indisponível para o público.

Eu sempre escorrego na filosofada, mas não tenho como deixar de lembrar do velho Ratinho, o meu viajante predileto, com aquela história dos peixes voadores que voam, voam, voam, mas nunca saem do mesmo oceano. É a maior verdade que ouvi sobre viagens em minha vida. Voamos como os peixes voadores, sem jamais sair dos nossos próprios oceanos. É isso que me faz gostar tanto de ir cada vez mais longe.