Mensagem na garrafa

A minha mulher sempre reclama que eu deixo revistas  abertas espalhadas pela casa. Deixo na última página que li, e guardo o resto pro dia em que eu topar com ela (a revista) de novo. E não é que noite dessas, de festinha de aniversário, a minha cunhada reclamou que eu deixei o blog aberto na sala! E que uma amiga dela já tinha comentado que eu devia mesmo ser um zémané, por que ela cansou de entrar aqui e dar de cara com aquela Riviera Maia ressequida!

Apelou até pra São Exuperi: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.

Eu, que não sou religioso e não tenho a mínima lembrança se li O Pequeno Príncipe, tentei explicar as vicissitudes de um blogueiro morgado, mas não colou.

Então apareci por aqui para virar a página e botar uma imagem que representa melhor o momento do blog.

Ao contrário do que muitos podem pensar, o blog não está parado. Só está devagar, incrivelmente devagar.

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Post em tempo (su)real na Riviera Maya

DSC09379 Nesta viagem ao México, a convite da Royal Holiday, pensei que daria pra botar umas fotos e escrever umas besteiras no blog entre uma frozen margarita e um mergulho nas águas turquesa do Caribe. Não deu. Pra começo, a minha câmera resolveu pifar logo no segundo dia. Um tal erro 99, que já vi ser comum nos modelos Canon EOS Rebel, uma coisa ridícula, falta de conexão entre a lente e a câmera, mais ou menos o que acontece entre o meu cérebro e o meu corpo nas atividades cotidianas que exigem alguma coordenação motora.

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A graciosa acompanhante que me põe e tira do sol e o grupo de alegres blogueiros, em seu primeiro contato com o azul-turquesa do Mar do Caribe

Vocês já sabem que estive por aqui junto a um grupo de blogueiros, cuja maioria só conheci no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. O fato mais notável para mim é que todos poderiam ser meus filhos, uma coisa inacreditável, se considerarmos que mal saí da puberdade e ainda não cresci o suficiente.

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André, tio Beto, Thiago, Mila, Mari, Andréia e Lolita, esperando o ferry para a Ilha de Cozumel

Como eu ia dizendo antes de me perder por aí, fui apresentado ao grupo na hora. A Mari Campos, do blog Pelo Mundo, jornalista e colaboradora, entre outros, da Viagem e Turismo da Abril, eu já conhecia das caixas de comentários do Viaje na Viagem, do Twitter e de ler seus textos. Mas, ainda em Cumbica,  foi ela que me reconheceu, provavelmente devido ao estilo do meu penteado, sempre em destaque nas fotos das conVnVenções realizadas em São Paulo. A blogosfera de Timbó, Santa Catarina, foi representada pelo adorável e cheio de truques  Thiago Busarello, do blog Vida de Turista, e o cybernegócio de Natal, Rio Grande do Norte, compareceu com a esperta e despachada Andréia Maria, do  Mundo Afora  A Mila Marques, que não é blogueira mas nos acompanhou representando a agência de comunicação da Royal, a Bursen-Marstteler, eu conheci ainda menina, filha de um velho amigo jornalista. Já em Cancun, juntaram-se a nós os simpaticíssimos hermanos mexicanos Laura Grisel, representando a Royal Holiday, e os jornalistas Dolores ‘Lolita’ Mateos e Andre Dulché.

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Andréia, André, Lolita, Thiago, Mila, Laurita, Mari e Teté

Não sei se mudou o (pré) conceito que eu tinha sobre Cancun e o tipo de turismo que o destino representa. Mas a viagem consolidou a conclusão de que viagem boa é aquela em que podemos travar contato com novas culturas e fazer novos amigos. Sentir-se, enfim, cidadãos do mundo. E neste quesito, mas não só neste, a viagem foi nota dez. Àqueles que resistiram ao texto até aqui em busca de alguma informação útil, vamos aos números do Instituto Databeto. Consulta feita sobre o que mais chamou positivamente a  atenção do casal Teté e Beto nesta breve passagem pelo México, 100% dos consultados cravaram: a cor do mar e a simpatia do povo mexicano. Com ao menos 50% (ainda falta metade da pesquisa de campo), aparece também o preparo dos trabalhadores (garçons, recepcionistas, faxineiros, motoristas,) mexicanos que atendem aos turistas

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Fator de proteção solar 15

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Minha família já sabe que existe uma relação metafísica entre o fator de proteção solar do filtro que eu uso e as condições climáticas. Quanto mais poderoso é o bloqueador, mais espessas são as camadas de nuvens interpostas entre mim e o sol. Por isso, por piedade em relação ao futuro do Caribe, optei pelo 15 em detrimento do 30. Com isso, garanti um dia apenas nublado em Cancun, com gotas de chuva esparsas na primeira fase do uso do protetor, e melhorias no decorrer do período, com o derretimento do creme após alguns arremedos de mergulho.

Minha mulher já faz cara feia quando peço para ela passar o sundown nas costas. Ela sempre argumenta que não faz sol e eu vou me besuntar inutilmente, além de agourar o dia de todos. Fazer o quê. Se Gregor Samsa tivesse nascido em Santos, em vez de barata ele teria se transformado num ácaro albino, como eu. Chove tanto naquela terra, que eu já não posso mais exibir meu torso bronzeado como fazia num passado remoto. Diante da ameaça concreta de me transformar numa brasa viva após meia hora exposto aos raios ultravioletas, opto sempre por atrair nuvens negras sobre a minha cabeça com o truque do protetor solar.

Enquanto o grupo de jovens e serelepes blogueiros desta excursão foi passar o dia no parque aquático de Xcaret, Teté e eu decidimos dar o dia de folga às nossas vértebras, hérnias e protusões. Ficamos na praia defronte ao Park Royal Cancun, onde nos hospedamos,  ao lado dos elegantes gringos aposentados sobreviventes da crise imobiliária americana.

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 Não posso dizer que foi um dia inesquecível, mas foi muito bom podermos juntar os fragmentos ósseos sobreviventes de uma viagem que durou mais de 24 horas entre o momento em que saímos de casa, na tarde de quinta-feira, 29 de outubro, e as 14 horas (horário do México, ou seja, com 4 horas a menos de fuso) do dia seguinte, quando chegamos ao hotel.

Pra falar a verdade, também estou morto neste momento, depois de um dia de praia, seguido de um almoço num pé-sujo e um passeio no shopping La Isla. Poucos conhecem essa faceta de atleta radical minha e da Teté. Somos capazes de verdadeiras loucuras quando viajamos, inclusive beber, comer e ir ao shopping olhar vitrines em Cancun.

Neste domingo, vamos à Isla Cozumel. Onde existe a ameaça concreta do tal navio pirata. Para aqueles que fizeram piadinhas sobre a minha fobia de macarena na caixa de comentários do post anterior, informo que não vi trenzinho em volta da piscina, mas agora à noite jantamos a menos de 10 metros de um karaokê. A vida é correr riscos, meus amigos. E eu sou um aventureiro dependente da adrenalina.

Por isso, é melhor ir dormir. Boa noite.

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Alguém sabe a previsão do tempo em Cancun?

Katrina

Foi assim: uma tarde me liga a Patrícia, de uma agência de nome impronunciável, que a princípio soou algo como  bãrsen-mariaesteler (na verdade, Burson-Marsteller Brasil), dizendo que a Royal Holiday estava me convidando para ir a Cancun com um grupo de blogueiros conhecer o lugar e, obviamente, os hotéis da empresa.  Passagens, estadia, alimentação e passeios, durante 4 dias, na faixa

Desconfiei. Fiquei de analisar. Dois pensamentos me passaram pela cabeça logo de cara. Vai que a empresa está envolvida com contrabando de órgãos, tráfico de escravas adolescentes, com o comércio clandestino de mãos decepadas de filhotes de gorilas de Uganda. Ou pior, que a excursão incluísse na programação dançar a macarena fazendo trenzinho em volta da piscina do hotel.

Imediatamente fui ao Google e me tranquilizou não encontrar qualquer notícia de jornal, revista ou site que relacionasse a Royal Holiday a atos desabonadores desse naipe, nem de qualquer outro.

Mandei um email pro Riq Freire, que meses atrás foi numa excursão semelhante, e ele me jurou não ter visto nenhuma macarena pondo em risco a reputação de turistas com alguma noção do ridículo.  Na verdade ele não jurou nada, apenas respondeu com um hahahá, o que, pensando bem, pode ser uma resposta de quem acha graça no mico que o outro está prestes a pagar. Como eu confio na pureza da alma humana, acho que o Riq não estava me sacaneando, mas dizendo pra eu ficar sossegado.

Postas estas dúvidas pra escanteio, baixou uma felicidade. Eu jamais havia desejado ir a Cancun, jamais me hospedaria por livre e espontânea despesa num hotelão daqueles à beira-mar e muito menos imaginado que um dia isso tudo viria de graça. Mas aí, bateu outra paranóia no Ubaldo aqui. Pô, passei décadas ouvindo falar num tal de ouro de Moscou, sem ver a cor da bufunfa ideológica, e iria, depois de velho, me render ao ouro de Wall Street? Na boa. Passou.

De modos que é assim. Tô indo hoje pra Cancun e a Ilha de Cozumel. Em plena estação dos furacões e das chuvas. No Dia de Finados. Numa excursão programada. Aparentemente sem previsão de gincanas e macarena (mas na programação tem um tal de navio pirata :shock: ).

Eu não acredito na Lei de Murphy.

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Pequeno guia para subir a Serra da Estrela

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A Cida L. pediu ajuda na caixa de comentários do único post que fiz sobre a Serra da Estrela, para uma viagem de carro que fará agora em outubro com duas amigas. O Toni Gravata, gentil como um lorde inglês (lorde inglês é gentil? não sei, mas se for, o Toni é desse tipo), conhecedor da área, fez um roteiro supimpa, reforçado pelas dicas da também portuguesa Isabel O., uma amiga destes curiosos tempos da internet.

Estivemos na Serra em 2004, Teté, filhas e eu, vindos de Madrid. Fizemos uma escala na cidade da Guarda, onde nosso amigo Toni transformava um velho lagar com espessas paredes de pedras na sua casa à prova de terremotos 8 pontos na Escala Richter.

Ficamos poucos dias. Fomos interrompidos pelo atropelamento de um gato, da espécie folgatus felinus, hoje entronizado na ordem dos cetáceos, em São Pedro do Estoril e que exigiu a presença urgente da família para confortá-lo pelo transe doloroso.

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Na foto da Teté, Chico Buarque de Holanda exibe suas cicatrizes enquanto toma uma ducha rápida

Foi um passeio tão rápido que tenho dificuldade de associar nomes e lugares. Mas a memória (ou, no meu caso,vaga lembrança) afetiva não me trai.

Lembro perfeitamente por exemplo que adorei almoçar no Vallécula, em Valhelhas (sei destes nomes agora, lendo embaixo as dicas do Toni para a Cida).

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Toni disseca um pudim (será de pão?)  no Vallécula, eu sou praticamente um militante do movimento “Salvem o Leite Creme”

Depois fomos descansar à margem do rio com a família reunida, rindo e falando abobrinhas, ou, dependendo de que lado você está do Atlântico, curgetes.
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Subimos a Serra num lindo dia de sol e, num esforço de enquadramento, nos fotografamos como se estivéssemos a ponto de esquiar nos escassos blocos de gelo remanescentes do inverno junto à estrada. 

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Admiramos a torre no ponto mais alto de Portugal e as vacas que ali pastavam (???).

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Também andamos pela cidade da Guarda, onde o que mais me chamou a atenção, além do belo centro histórico, foi a frase de D. Sancho I, fundador da cidade, ao pé da sua estátua: “Ai muito me tarda o meu amigo na Guarda”.

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Como não poderia deixar de ser, muitas interpretações se fizeram ao verso do bardo lusitano. O uso do vocábulo “Ai” no início da frase levou a muitas precipitações homófobas. Mas confesso que a mim também me tarda o meu amigo na Guarda, ainda que eu me poupasse de emitir um “Ai”, sem ver qualquer demérito para quem o faça.

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O meu testemunho sobre a cidade da Guarda não seria completo sem mencionar o mais desinibido gárgula, se podemos chamar assim, que já vi. No alto da antiga Catedral, a escultura de uma bunda com um, perdão pela crueza do linguajar, cu profundo e tenebroso voltado na direção de Espanha mostra como os irmãos ibéricos praticam com gosto a etiqueta da boa vizinhança.

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Espero em breve voltar lá, para conhecer melhor aquilo que vi de passagem. Enquanto esse dia não vem, deixo com vocês as dicas do Toni e da Isabel para a Cida L.

“Outubro já é um mês bonito, com a paisagem a verdejar, temperatura agradável e menos gente nas estradas, que são seguras, com as devidas precauções nas zonas das curvas de serra”, informa com precisão Toni Gravata. Que dá o rumo:

“Na região do Sabugal, é imperdível uma visita a Sortelha, aldeia muralhada, em grande parte recuperada, muito bonita.

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“Pode passear na muralha, a vista é deslumbrante.

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(Abro aqui parênteses para alertar sobre os riscos de se utilizar a escada errada para descer das muralhas. Como se pode ver na foto abaixo, até mesmo os nativos se atrapalham com a tosquidão arquitetônica medieval e por muito pouco não sucumbiram ao vexame de chamar o resgate para serem retirados daquela arapuca)

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(Aproveito os mesmos parênteses para salientar que em Portugal ainda se acham lugares como este, belos e autênticos, poupados da descaracterização provocada pelo turismo de massa)

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“Daí – prossegue Toni -, recomendo seguir para Belmonte, berço de Pedro Álvares Cabral, com um património histórico e cultural vasto e bem assinalado. Seguindo em direcção a Manteigas, passará por Valhelhas onde o almoço no famoso Vallécula é imperdível.

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Paisagem campestre em Valhelhas, à margem do rio

“A estrada para Manteigas, ao longo do rio Zêzere, é um lindo passeio, c
ontinuando a subida da Serra sempre pelo vale do rio, até à nascente, e continuando até aos Piornos, ponto mais alto do País.

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Na foto da Teté, a estrada que leva ao topo de Serra

“Daí, eu gosto de descer para Seia, do lado norte da Serra e rumar a Gouveia, Celorico da Beira e Guarda. Um pouco mais a norte da Guarda, recomendo visitar Almeida e Castelo Rodrigo, duas vilas muralhadas mas de épocas e arquiteturas completamente diferentes.”

Ao que a Isabel acrescentou:

“Em Belmonte abriu recentemente um museu chamado ‘À Descoberta do Novo Mundo’, centrado sobre o Brasil e a viagem de Pedro Álvares Cabral. É engraçado, moderno e vê-se bem.

“Nessa altura do ano (outubro)  já é mais fácil arranjar alojamento. Há muita variedade. O mais económico para esses lados são as pensões/residenciais, mas também já há outras opções como turismo de habitação a preços razoáveis e apartmentozinhos.

“Eu já por duas vezes que fico aqui – www.quintadoforninho.com.pt. Não é bem dentro da Serra mas o acolhimento, o preço e a possibilidade de poder comer em casa agradam-nos (não será o vosso caso que devem estar em trânsito, é diferente de sair de casa de carro com o que é necessário).

“Noutro nível já ficámos aqui – é absolutamente recomendável (e vale mesmo o preço) – www.casadaspenhasdouradas.pt ou www.wonderfulland.com. Penhas Douradas é ao pé de Manteigas.”

Isabel ainda recomendou o trajeto que a Cida quer fazer de Évora à Serra:

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Évora – Estremoz – Portalegre – Castelo Branco – Covilhã (aí está na Serra e fará uns passeios – no Turismo dão-lhe mapas)… depois ou faz Covilhã-Seia – Viseu (por dentro do Parque Natural da Serra) ou Covilhã – Belmonte – Guarda – Celorico da Beira – Viseu. De Viseu há auto-estrada para Aveiro. Nestes sites encontra informação útil: www.rtserradaestrela.pt,  www.portalserradaestrela.com e  www.serradaestrela.biz.”

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Por que me ufano da minha ratatouille

ratatouilleFoto do Vinícius
Ratatouille é um prato provençal cheio de abobrinhas, portanto tinha tudo pra virar uma especialidade minha. Há anos venho testando modos de prepará-la e prestando atenção nas várias maneiras que já vi virem à mesa. Em algumas os legumes vêm bem miúdos, em cubinhos de menos de 1 cm, em outras os vegetais são cortados em rodelas ou gomos, com tempero agridoce (na verdade, é assim na caponata, a versão italiana do prato), com as berinjelas e abobrinhas passadas na grelha, na caçarola ou assadas ao forno.

O principal desafio de um blogueiro como eu é vencer o medo do ridículo. Portanto, não é sem alguma vergonha que vou usar o terreno baldio em que vem se transformando este blog para dar uma receitinha.

Não sou cozinheiro, mas como quase todo mundo hoje em dia adoro um avental. Quem cozinha bem é a minha mulher. Eu descasco batatas, desfolho cebolas e esquartejo alhos sem qualquer categoria. Como todo homem moderno, faço o nome em cima do macarrão Barilla, risotos e outras enganações. Quando entro em pânico, grito o nome da minha mulher, sempre pronta a impedir ou reparar o desastre iminente.

Isto posto, não leve a mal (eu só quero, que você me queira).

Ratataouille do Beto (6 pessoas)

Ingredientes:

1 kg de abobrinhas (as melhores são as que têm poucas sementes, orgânicas) cortadas em rodelas de 1 cm

1 kg de miniberinjelas cortadas em rodelas de 1 cm

1 pimentão amarelo, 1 vermelho e 1 verde (grandes)

2 caixinhas de cogumelos (prefiro paris, mas vai do gosto) sem cabos e cortados em lâminas não muito finas

5 cebolas grandes (o melhor é o equivalente em minicebolas) cortadas em gomos ou, no caso das mínis, ao meio na horizontal.

1 cabeça de alho cortado em pedaços não muito finos nem pequenos

4 ou 5 tomates italianos (prefiro o equivalente em minitomates italianos) cortados em gomos, sem sementes

um punhado generoso de algum tipo de amêndoa: caju, pinole, nozes e até castanha do pará (a que você gostar mais)

um punhado generoso de uvas passas brancas (hidratá-las em água fria durante uma ou duas horas)

um punhado de azeitonas pretas (eu deixo com o caroço, mas há quem prefira as descaroçadas)

ervas em abundância – manjericão, salsa, cebolinha, orégano e tomilho frescos, hortelã e o escambau (se tiver na sua horta)

vinho branco (não pode ser uma porcaria de vinho, um chardonnay concha y toro tá bom)

azeite (virgem pra refogar, extravirgem para regar)

sal

pimenta moída na hora (com parcimônia)

Modo de preparo:

1 – Salgar as fatias de abobrinhas e berinjelas e deixá-las suar sobre papel toalha, durante uma hora pelo menos. Enxugá-las e dourá-las no forno em assadeira untada com azeite.

2 – Numa frigideira grande, refogar no azeite, o alho e as cebolas, até que estas estejam caramelizadas, com cuidado para não queimar o alho (controlando a temperatura). Assim que as cebolas estiverem ligeiramente douradas, juntar os cogumelos, meio copo de vinho branco, sal e pimenta a gosto. O cogumelo vai soltar líquido, quando começar a secar, tá bom.

3 – Pelar os pimentões (um saco: passar direto na chama do fogão, queimando a pele – do pimentão, de preferência, não a nossa-, passar em água fria e retirar a pele numa tarefa extremamente enfadonha para o meu grau de destreza). Depois de pelados e limpos, cortar os pimentões em tiras nem muito finas, nem muito grossas, segundo o sistema métrico decimal.

3 – Montar numa travessa que vá ao forno, em camadas, as porções alternadas de tomates, berinjelas, abobrinhas, pimentões (misturando as cores), uvas passas, azeitonas e amêndoas, cobrindo com o refogado de cebolas e cogumelos, salpicando cada camada com as ervas. Assim sucessivamente, de modo a formar ao menos 3 camadas.

4 – Deixar no forno até 10 minutos (no mesmo sistema métrico decimal referido acima) depois que o azeite começar a ferver.

5 – Enfeite com ramos de tomilho e um fio de azeite extravirgem.

6 – Sirva com um pão que mereça este nome, ou com carne, peixe ou ave, grelhados ou assados.

Um vinho branco e um rosé, se for comer como entrada ou aperitivo, mas fica uma maravilha com um tinto se rolar uma carne.

Se não der certo, tentem até dar. E não me responsabilizem pelas vaias. O problema é vosso de seguir uma receita minha.

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A praga da crase despirocada

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Não adianta explicar. Por mais que o professor Pasquale se esfalfe para ensinar o que é a crase e sugira alguns macetes básicos pra identificar a oportunidade do seu uso, a crase despirocada, uma mutação maligna da crase original, dissemina-se muito mais rapidamente do que as aulas do professor, deixando o vírus da gripe suína À ver navios em velocidade de propagação e número de vítimas.

Minha mulher fica na paranóia (paranóia tem acento?). Confere todas as crases despirocadas. Caça as bicharocas que pululam em faixas, cartazes, letreiros, cardápios, bilhetes, parachoque de caminhão, placa de sinalização. E é duro mesmo se conformar que a escola no Brasil não ensine o Português. Um número imenso de professores não fala nem escreve corretamente. É a República do Tchan.

Quando (eu e a minha mulher) vemos o erro ficamos estupefatos. Normal e diariamente estupefatos. Mas quando a maldita crase despirocada aparece em comunicação oficial, jornais e revistas, a estupefação adquire contornos de ataque epilético.  O mínimo que se espera de um governo é que fale e escreva na língua local e não uma versão a ser consagrada na reforma ortográfica do Ano do Burro, em 3012, segundo o calendário chinês. É condição básica, né? As grandes empresas de comunicação, para onde converge boa parte dos enormes recursos públicos e privados investidos em publicidade, por sua vez, deveriam ter os melhores profissionais, alfabetizados de preferência. Nem sempre é assim.

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Vez ou outra damos de cara com a despirocada numa página nobre. Semana passada a minha mulher me mostrou um suplemento publicitário da Vogue Brasil (eu disse Vogue, o chique no úrtimo da imprensa mundial), aparentemente patrocinado pela ABEST, Associação Brasileira de Estilistas. A capa é um mosaico de fotos, sob o logo Vogue Brasil e o nome da ABEST. Assim que você abre a revista dá de cara com duas páginas em branco, quebrado apenas pelo seguinte dizer:

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A sorte é que não tem crase nem acento em Inglês. Por isso o expediente se salva com galhardia. E em duas páginas recheadas. A Vogue comparece com managing director, editor in chief, fashion coordinator, executive production, fashion production, o escambaution. O editorial board é o morango da cereja, com nomes suculentos como Ignácio de Loyola Brandão, Costanza Pascolato, José Saragoza, Matinas Suzuki e Sig Bergamin.

A escalação do time da ABEST conta com o luxo de um president director, seguido por um corporative vice-president, um executive vice-president e outros 6 vice-presidents além de um chief, dois managers e um coordinator. Marvelous!

A agência Gragnani assina o layout, através de um creative director e mais dois nomes sob a singela rubrica Art.

Acho que a ideia é vender a moda brasileira no exterior. Dou o maior apoio. Bota lá em Inglês o que deve ser em Inglês. Mas não precisa tratar o Português no bico da chuteira, só porque somos o país do futebol.

Acho que é caso pra um recall. Chama quem comprou a revista e dá um exemplar novo, sem defeito. Neste caso, ao menos, o uso de uma palavra em Inglês, recall, traria algum benefício ao leitor  e ainda propiciaria a quem está contaminado pelo despiroquismo craseático, e ainda não percebeu, uma boa oportunidade de se livrar desta sarna ortográfica.

O meu abraço À todos.

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