Tropeçando nos lábios de Emmanuelle Béart
Julho 2, 2008Este ano o Festival de Cannes pôde finalmente contar com a nossa presença. Fomos numa sexta-feira, depois de um almoço à beira mar.
Chegamos pela praia. Que é, na minha opinião, sempre o melhor lado pra se chegar a um lugar.

Como não queríamos chamar a atenção, demos uma volta pelo cais até à extremidade do Palácio do Festival, tipo comendo o mingau pelas bordas, antes de chegar ao fervo da Croisette.



Na verdade, naquela hora a Croisettte ainda tava morna.

Já tinha ouvido alguém dizer, sob o risco de um raio cair sobre a cabeça, que a orla de Cannes parece um pouco com a de Santos. E olha a leoa da foto abaixo que não deixa o raio que partiu mentir. As crias que ela amamentava acho que foram parar no Gonzaga, onde há décadas, eu diria séculos, servem de cavalgadura para crianças.

Caminhamos pelo jardim até a lateral do tapete vermelho, onde se dá o desfile, entre duas arquibancadas de jornalistas.

De última hora, eles liberam a entrada em um bolsão a 10 metros da passarela. Ao lado da escadaria na entrada do palácio, um telão mostra as imagens do que acontece no tapete vermelho. Aos poucos, vão chegando fotógrafos, equipes de cinegrafistas e de tevê. A turma do gel e do silicone vem em seguida. A neo-peituda aí de baixo é famosa, mas não sei quem é não.
Desconhecidos com ar suspeito e roupa alugada aproveitam a ignorância dos jornalistas para fingir que são artistas. Assistimos a uma boa hora de anquinhas, queixos no ombro e beiçolas. Zé Bonitinho não ia fazer feio, nem a Serafina Palito.
Além de não ver nada, e tendo em vista o adiantado da hora, já íamos saindo de fininho quando a Emmanuelle Béart - finalmente, alguém conhecido! - apareceu dando show pros fotógrafos. No telão, parecia que ela ia pro lado direito enquanto os lábios iam pro esquerdo. Um descontrole. Ela, seguramente não dominava aqueles, digamos assim, lábios botocudos… que pareciam ter vida própria. Na hora, eu não lembrei de nada que a Béart tivesse feito. Tenho problemas de memória. Ela, pelo jeito, não, pois me deu até um tchauzinho.

O passeio em Cannes foi bom, mas eu sempre acho curto. Um dia eu volto lá.

Eu ainda não havia feito a conexão entre esse encontro com a Emmanuelle e uma coincidência ocorrida dias antes, num passeio a Ansouis (pronuncia-se o ésse final; soa quase como en Suisse), no Luberon. No carro com nossos amigos Marie Pierre e Bruno, entramos por um caminho entre Lourmarin e Ansouis, daquelas estradas pra um só carro, de mão dupla. Lembrei dos filmes Jean de Florette e Manon des Sources e ia perguntar se eles sabiam onde havia sido filmada a história quando alguém entrou com outro assunto e eu acabei não perguntando nada.
Em Ansouis, vimos uma exposição de flores e passeamos pela vila.
Um artesão fazia pequenos vasos de barro no torno.
O marketing do cara é dar esses vasinhos de presente pra assistência e ele deu um pra Teté. Que adora vasos, cerâmica e artesanato. E, por que não dizer, adora também os pedriscos do caminho. Aí pintou uma idéia.
E não é que ficou bonitinho? A técnica dos desenhos com pedrinhas ela conheceu em Portugal. Foi, portanto, o provável início de uma influência lusitana na potterie francesa, com desdobramentos inimagináveis e que só poderemos aferir no futuro.
Encurtamos a caminhada, pra preservar o vaso e porque já conhecíamos Ansouis, e nossos amigos franceses nos propuseram ir a Vaugines, onde havia uma pequena igreja que, eles achavam, iríamos gostar.
No caminho, nos disseram que foi em Vaugines que filmaram Manon des Sources (ver também Jean de Florette). E eu não havia falado nada. Ainda boquiaberto com a transmissão de pensamento, chegamos à igreja da vila, que aparece na cena da revelação final da história, quando Yves Montand faz a gente lembrar de Marcello Mastroiani.
O banco de pedra, que se vê na foto abaixo, já conheceu portanto a bunda do Montand, à qual as nossas foram apresentadas por tabela.
Essas coincidências fazem a gente se sentir bem, né? A história é meio invertida, sem sentido cronológico como no bom cinema francês, porque só quando cheguei ao Brasil fui pesquisar sobre os filmes e descobri que a Emmanuelle Béart interpreta Manon e tinha na época uma boca linda, eu diria maravilhosa mesmo, destruída pelo progresso da ciência e pela falta do que fazer.
Não chegou a ser uma descobeeeerta, porque eu já havia visto o filme há muito tempo e conhecia a Emmanuelle, só não me lembrava de onde, como, quando e por quê. E isso é muito normal.




















Escrito por Beto










































