O povo lá no Viaje na Viagem introduziu (ops!) o Titicaca, Cuzco, Machu Pichu e a Trilha Inca numa discussão sobre viagens prioritárias. Como eu já disse, a primeira viagem da minha vida (adulta, digamos assim) foi de carona pra Peruíbe.
Já a minha primeira viagem internacional foi pro Peru, o pacote Bolívia-Peru. Isso foi lá pelos anos 70. Não segui os conselhos do Teco e fui com o Corvo Bêbado, que resolveu, em plena madrugada no trem de Bauru a Corumbá, defender um bebum que enchia o saco e estava prestes a ser jogado pela janela por um bilheteiro truculento e bem mais forte do que todos. Foi por um triz que não me uni ao bilheteiro e propus um arremesso duplo, disposto a sacrificar uma velha amizade em prol da minha integridade física.
Gostei tanto da viagem que repeti o roteiro em 82. Desta vez, por razões de segurança, fui sozinho. De novo, de trem até Corumbá e Santa Cruz de La Sierra. As fotos que restaram estão um pouco deterioradas, como eu (do Corvo, nem se fala), mas esta é uma boa oportunidade de resgatá-las.
Acho que a Bolívia não deve ter mudado muito. A alguns quilômetros antes de Santa Cruz, eclodiu uma greve geral de transportes. Arrancaram os trilhos e fizeram barricadas nas estradas. A parada na estação que vocês vêem acima durou uma tarde inteira. Como sempre surge alguém disposto a lucrar com a desgraça alheia, nós, os flagelados da mochila, que já formávamos um animado pelotão, pagamos para um caminhão nos transportar até o hotel mais próximo, o que foi feito através de fazendas, parte do caminho a pé, de noite, com a luz de tochas e lanternas. Muuuuito romântico.
De Santa Cruz, fui de avião para Cochabamba, que devia estar igualzinha ao tempo de Butch Cassidy e Sundance Kid (eles andaram por lá, não?) e, provável, não muito distante do que é hoje. A foto aí de cima deve ser de uma espécie de feira, mas a cidade toda me pareceu uma feira indígena.
O espírito de Túpac Amaru me observava. E devo ter feito alguma besteira, porque tive uma dor de cabeça de arrebentar durante a noite, obrigando-me a tatear no escuro, na espelunca em que me hospedava com o pelotão animado, em busca de água pra dissolver 45 gotas de novalgina. Só no dia seguinte vi a espécie de água que utilizei e sobre a qual não falarei para preservar alguma dignidade.
De lá, fui pra La Paz também de avião. La Paz, todos sabem, fica num buraco e de suas principais avenidas pode-se avistar o Illimani, essa montanha estupenda da foto acima. O que mais me afetou na cidade foram seus odores. Não sei se eram as empanadas de queso e de carne, ou a banha em que eram feitas as frituras. Nas encostas, onde vivem os pobres, eu sei bem do que era aquela catinga, mas também vou poupar-me de maiores explicações. O cheiro era forte.
Depois de alguma espera e procura, consegui uma passagem de ônibus para Cuzco (trem, com travessia de barco pelo Titicaca, nem pensar; a greve continuava). Morales y Moralitos (Imoralitos?) era o nome da maldita empresa de ônibus. Tenho a impressão de que foram mais de 24 horas agarrado às bagagens. Nas paradas, durante toda a noite, vendedores e outros insones invadiam o bumba até pelas janelas, oferecendo chicha fria, empanadas de queso e pedindo uns trocados. Mas cheguei a Cuzco e adorei. Pra falar a verdade, adorei a viagem.
Fui brindado, em plena Plaza de Armas, por uma breve aparição dos guerrilheiros do Sendero Luminoso. Eu não tinha idéia do que fazia ao apontar a teleobjetiva na direção daqueles caras armados, de capuz e cheios de minhocas maoístas na cabeça. Mas a foto, 25 anos depois, finalmente ganhou uma utilidade
Cuzco é uma cidade pra se perder pelas ruas e se surpreender com as construções de pedras gigantes feitas pelos incas, sabe-se lá com que técnicas, sobre as quais os espanhóis ergueram os seus casarões, antes, durante e depois de Francisco Pizarro, por interesse da coroa espanhola, promover o genocídio dos nativos.
O Vale Sagrado dos Incas (foto acima) é cortado pelo rio Urubamba e cujo rugido (ouvido no escuro, à noite, ao atravessá-lo numa espécie de tirolesa, para acessar o Caminho Inca) eu jamais esquecerei.

Pisac, em pleno Vale Sagrado, é um passeio-lerê, no vocabulário criado pelo Ricardo Freire, lá no Viaje na Viagem (pra quem não é iniciado no freirês, trata-se de um passeio obrigatório, que evoca aquela musiquinha da Escrava Isaura, lerêê-lerêêê) .
Encarei o Caminho Inca por razões inconfessáveis. Não tinha a menor idéia do que fosse. Eu era, na época, um palito dos mais leves. O exercício que eu mais havia praticado até então era o de recolher os longos fios dos meus cabelos todas as manhãs na pia do banheiro. Mas eu estava bem acompanhado. O grupo que se formou, ao longo de toda a viagem, tinha um holandês maratonista, um suíço esquiador, um francês alpinista, um médico e uma professora austríacos e um brasileiro gaiato. A professora tinha problemas num dos joelhos, por isso eu precisava ir para ajudá-la na caminhada, não sei se vocês me entendem.
Não sei como é hoje, mas naquela ocasião éramos obrigados a carregar TUDO nas costas. Roupas, saco de dormir, comidas, fogareiro, barracas. Cada um levava, fácil, uns 20 quilos. Normalmente, faz-se o percurso em 3 dias, ficando o 4 dia só para Machu Pichu. Fizemos TUDO em 3. Atravessamos o 1º passo (são 3) no primeiro dia de caminhada (umas 14 ou 15 horas). Não tenho certeza, mas acho que fomos de menos de 2 mil a quase 4 mil metros, sob chuva (gelo), vento e pouco oxigênio (pelo menos, nos meus pulmões).
Se me perguntarem se valeu o esforço, eu digo que valeu. O caminho é magnífico, as ruínas da trilha original, as construções incas e, principalmente, a paisagem são estupendas. Só não faria de novo, sobretudo a esta altura do meu campeonato.
Pra comprovar a história, taí eu em cima, com meus estimados e saudosos mullets, o Teco iluminado pelo deus Sol e com a Cordilheira dos Andes sob os glúteos.
Esta é a vista de Machu Picchu a partir da trilha, ao amanhecer, horas antes da invasão de turistas que chegam depois das 10 horas, vindos de trem de Cuzco e de ônibus de Águas Calientes.














Beto, eu vim pra cá diretamente do VnV, mas só vou voltar depois de terminar esse comentário…
Estou ficando a cada dia mais empolgada com essa idéia de ir ao Peru nas próximas férias, principalmente agora que já vi que o pessoal do VnV tem 1001 dicas interessantes!
Carla, acho que a Bolíva e o Peru devem constar daquela listinha de prioridades de qualquer um (apesar de não tê-los colocado na minha; é a idade).
OOOps, valeu pelas dicas, já que eu pedi primeiro (risos), nossa viagem é agora em maio. Agora volto pro VnV, mas já adicionei teu blog nos favoritos, abraço Fábio Machado
Recuerdos, recuerdos…e naquele dia em que, chegando em Corumbá, um sujeito logo chegou na gente e perguntou se não emprestaríamos nossos RGs para “levar alguns carros” para Porto Suarez em troca de passagens de avião para Santa Cruz de la Sierra…e naquela noite em que fomos acordados por batidas fortes na porta do quarto do hotel pelos homens do Banzer (o ditador de plantão) que queriam saber o que pretendíamos fazer na Bolívia…e naquele segundo dia de nossa chegada a La Paz, quando vocês vomitavam aos montes pelos efeitos da altitude e eu dava risada, até ter uma crise de angina (?) no dia seguinte e ter que me chapar de novalgina (olha a dipirona de novo aí) pra conseguir voltar a respirar direito…e o gerente do hotel fulero, onde ficamos hospedados por mais de 10 dias, que só na hora do fechamento da conta “descobriu” que éramos brasileiros, já que até ali jurava que éramos franceses (???)….e o clima de “Brasil , Ame-o ou Deixe-o” que predominava em La Paz, no final de 1975, com fotos do Banzer em todos os lugares (aqui, poucos anos antes, eram as fotos do Médice) e o….bom, depois a gente conversa…
Hahahahahahaha, mto bom beto!!! Bá cara, que vontade de sair por aí só com a carteira e uma passagem de avião na mão… como tem lugar pra visitar ainda, impressionante! Nunca tinha pensado em nesse roteiro Perú-Bolívia… Perú sim por causa das ondas e tal, em Punta Hermosa, e óbvio que Machu-Pichu tbm, mas Bolívia nunquinha… Agora fiquei muito curioso!
Bá, demais mesmo!!!
Forte abraço, Diogo.
Corvo, como a tua memória tá preservada… Eu não lembro de nada, nada. Bom, de vomitar eu lembro. O que fizemos dos nossos neurônios? O horror… O horror…
Esse Diogo tem todo o jeito de gente boa, né não?
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Muito bom seu blog, Beto, e o teu estilo é muito engraçado. Vou te linkar.
Abraços!
Brigadão, Arthur.
e da-lhe mullets… quem diria hein betinho
ta ai um lugar que eu nao tive vontade de visitar
Beto,
Dei uma passada por aqui e adorei seu texto. Una pregunta, suas fotos são escaneadas ? Ontem à noite achei algumas da minha viagem. Você não tem nenhuma do Lago Titicaca ?
Então você também ficou enjoado, pra mim era o cheiro de coca que os indios mastigavam o tempo todo rs
Catitausa: é porque você não foi…, mas ainda pode ir.
Majô: escaneadas, sim; as fotos que fiz do Titicaca estavam uma caca; cheiro de coca? não pensei nisso, não… Obrigado pela visita e um abraço
Beto, muito divertido, adorei teu relato!
) e ver fotos de Cuzco nunca cansa, ô cidade bacana…
Me lembrei de várias coisas (outras eu fiz num esquema menos insano
Adorei teu blog!
adorei e me lembrei de outras passagens.Quando chegamos em La Paz, sábado , ninguem aceitava dólares.Álias, os quais consegui com a venda das perucas da minha mãe, que estava nos EUA.Para o Corvo:as batidas na porta foram em La Paz, onde nosso hotel ficava nos fundos de um quartel.Lembra?A gente tava jogando cartas, naquela noite. Muito medo,eim? A gente ficava vendo a formação da “tropa” átras da cortina.Estive em La Paz há uns 3 anos e não recomendo prá ninguem.E mais: tenho uma foto tua Beto, segurando uma lhama nos braços. Por que será que alguém quer segurar uma lhama no colo? Essa pergunta me persegue há 30 anos.Beijos
Eu não sabia dessa história do Beto segurando uma lhama no colo, mas agora que eu sei, a pergunta, com certeza, vai me perseguir pelo resto da vida: Por que será que alguém quer segurar uma lhama no colo?
Tudo bem, respeito os seus sentimentos, mas me responda: Por que será que alguém quer segurar uma lhama no colo?
e continuo insistindo… se a muana pega o teco aquele dia na ilha… tu tava perdido
não fique tão agradecido assim não. Eu sei de muitas histórias.Álias, na foto você está com a lingua prá fora. Será que ela era pesada demais pro teu físico?
Ex-mulher é fogo. Só lembra de coisas constrangedoras. Ainda bem que a Sílvia só consegue lembrar dessa história de lhama no colo. Pra falar a verdade, estou espantado. EU NÃO LEMBRO DE NADA. Vocês não sabem como o falecimento do Tico me afetou.
Vocês devem ter percebido que a seqüência dos comentários ficou bagunçada. É que o horário do blog tava errado e eu corrigi.
Corvo, a resposta pra tua dúvida é simples: as lhamas são fofinhas (mas elas cospem, certo?)
Batata: se a Muana pega o Teco eu tava frito…
Sílvia: ficamos por aí, certo? (Quanto custaria pra que você me desse todas as minhas fotos?)
As fotos estão separadas aqui.Tem fotos do Rio (quando ainda se dava prá passar as férias lá), da Bahia, de Alagoas,Rio Grande do Norte,Bolívia e Peru.Vou agilizar a entrega,neste ano
Beto,
Adorei as fotos, o texto, o seu humor.
Brigado, Mô.
Todo mundo endeusa João Gilberto, mas esquecem do Jorge Ben (Jor). Por que eu estou dizendo isso? Porque eu ouvi Jorge Ben hoje de manhã e me deu vontade de dizer isso em algum lugar. Aí lembrei do blog do Teco, quer dizer, do Beto.
eheheheheheheheh eu que nem sou de blogs tou adorando esse
para quando a crónica da lata?
Corvo: em que mundo você vive? eu não entendo é por que endeusam o Jorge e esquecem o João. eu não esqueço nem endeuso (endeuso?) nenhum dos dois. eu ouço.
Gravatinha: Lata? Que papo é esse de lata? Não sei do que tu estás a falar…
Muito bacana esse texto. Quando sai o próximo? Esse blog começou “ontem” e já tem um montão de coisa bacana! Manda mais.
Só pra avisar que agora é sério. O http://oanodalargartixa.wordpress.com/ existe mesmo!
Abraços ao Teco, ao Tico e à Lhama Distraída.
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Falta foto do meu pai nessa viagem hein,rsrs…mil bjos.Adorei!!!
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há quanto tempo existe a cordilheira dos ande?
quem souber me avisa!!!
obrigado
xau
fgc
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Faz uns 12 anos que fiz a trilha e hoje tenho 58 anos mas se as “canetas” aguentarem eu vou fazer a trilha de novo em breve. Imperdível e experiência fantástica e indefinível.
BETO AMEI SUA HISTORIA ,SOU DE PAULOA FONSO NA BAHIA POR CAUSA DO TRABALHO DO MEU MARIDO ESTAMOS MORANDO EM JACY PARANÁ RONDONIA E MESMO ANTES DE SABERMOS Q VIAMOS PARA CÁ EU JA ERA FASCINADA PELA BOLIVIA E PERU PRINCIPALMENTE OS INCAS E SOBRE “MACHU PICHU” JACY PARANÁ TEM MUITOS BOLIVIANOS E PERUANOS E FICA PROXIMO COMPARANDO AS CIDADE DO BRASIL RSRSR E SOU LOUCA PRA CONHECER BOLIVIA E PERU ABRAÇOSSSS
Hola Jessica, a qual dos “Betos” você se refere. Eu fui quem recebi teu e-mail.