Tô aqui cumprindo um dever cívico. Foi por um triz que não me fiz de esquecido, logo eu um cara de memória prodigiosa, praticamente um fenômeno, e dei de barato que o post sobre a primeira parte desta viagem deixava bem claro que haveria uma continuação. Como toda história que tem duas partes, a primeira é sempre melhor. A segunda é só pra aproveitar o marketing da primeira e o custo de produção já empenhado. O diabo foi driblar a preguiça, essa minha companheira que não desgruda.
Saímos do Sul da França em direção a Genève (o certo seria escrever Genebra, mas não consigo, pra mim genebra é aguardente). Foi o trecho mais longo dirigindo. 510 km em aproximadamente 5,5 horas, a maioria em autoestrada. A nosso roteiro passaria por Genève, Luxemburgo, Bruxelas e Paris, onde devolveríamos o carro.
Temos amigos em todas essas cidades e não ficaríamos em hotéis. Olhando as fotos é que a gente vê como o tempo passa (esta nunca ninguém tinha ouvido falar, né?). Não porque tenhamos sido tão mais magros, menos cansados, mais peludos. Mas porque a gente achava que disparava a câmera como dementes. Lembro que foram quase 50 filmes de 36 poses. E agora percebo que economizávamos fotos. Com o surgimento das digitais, não deixamos passar nem xícara de cafezinho.
Não que Genève seja uma maravilha e mereça milhares de fotos. Mas, convenhamos, não precisavam ser tão pobrinhas como as do Lago Léman e do seu esguicho aí de cima.
A economia de fotos é que fez com que os quatro sobreviventes do Dilúvio aí na praça aparecessem por aqui, pois eu não encontrei uma só imagem, sem uma boca por perto, do pornográfico chocolate meio amargo com raspas de laranja que comíamos ao sol.
Não posso dizer que conhecemos Genève. Pra falar sinceramente, quanto mais eu viajo mais tenho a impressão de que não conheço lugar algum. Acho sempre tudo muito rápido e superficial. Em Evian, a caminho de Montreux, à margem do lago, eu só tive tempo de tomar uma água mineral. E de notar que apesar das evidentes características em comum, Evian não se parece em nada com Lindóia.
Montreux fica exatamente na outra ponta do Lago Léman, em oposição a Genève. Então, contornamos o diabo do lago. E chegamos em pleno Festival de Jazz, cidade cheia, música nas ruas, dia típico de verão europeu. Como se sabe, verão na Europa é uma festa e na Suíça dura uns dois dias. Por isso, tem que aproveitar.
Se isto serve para alguma coisa, digo que Montreux é uma bela cidade. Cheia de flores, picos nevados no horizonte, o lago que é como o mar. Não tive tempo de conhecer o que deve ser o seu maior defeito: um frio de lascar quase o ano inteiro.
No terceiro dia pela manhã saímos para Luxemburgo. Dizem que é um lugar onde as rosas são lindas
. Mas o caminho até lá tem cheiro de bosta de vaca (eu tô falando sério, inclusive chegamos à conclusão de que este é o cheiro da Suíça, o que dá a medida da profundidade das nossas observações em viagem) e essas usinas cavernosas aí de cima, soltando fumacinha.
Luxemburgo tá assim de portugueses. É quase um território avançado. Não percebi, mas o pão deve ser bom. A cidade é cortada por um vale e tem aquela pontona de ferro vermelha, que virou cartão postal.
Não falta grana no pedaço. Segundo a Wiki, é o maior Produto Nacional Bruto per cápita do mundo. Então a capital é hiper bem cuidada, limpa, asséptica, não tem um pelinho fora do lugar. Tá ali, por uma pena, com Salvador da Bahia.
Fiquei todo feliz quando topei com esse Café Santos aí em pleno Luxemburgo. A minha cidade, Santos, foi a capital do café brasileiro durante o período de ouro da exportação da bebida. É, internacionalmente, sinônimo de um blend de grande sucesso comercial (há controvérsias, alguns dizem ser o blend em homenagem a Santos Dumont, divulgador do produto e descendente de cafeicultores). Foi o Teco quem me botou a dúvida: será que o dono do café não é o seu Santos, aquele tuga que saiu de Penacova ainda puto?
Oi!
Este lugar do castelinho aí de cima chama-se Vianden. Nada a ver com o seu Santos. Foi apenas um passeio a que os tugas de Luxemburgo nos levaram.
Confesso que de Vianden só lembro de uma cerveja trapista à qual fui apresentado. Negra, densa, quase uma feijoada. Depois dela, a pequena cidade, que já era uma beleza, ficou hic!, digo, hipnotizante, talvez por isso eu fiquei com aquele sono e levei uns cutucões da minha mulher.
É tão rápido de Luxemburgo pra Bruxelas que não fizemos fotos da estrada (lembre-se, estávamos economizando filmes). Caimos direto na pracinha principal da cidade, que eles chamam de Grand Place. É que nem praça do interior. É lá que tá o movimento. Onde se caminha olhando pros lados. Ou então se senta no boteco e pede um goró.
Olhar pros lados é o melhor programa da Grand Place. Olhe pra cima e pra baixo que você vai entender do que eu tô falando.
Tô em dúvida e o Teco saiu de fininho pra não ser responsabilizado por um eventual vexame. Mas uma vozinha, lá das profundezas do meu cérebro, diz que entre 1847 e 1848, no prédio onde tem esse cisne aí da foto, na Grand Place, Marx e Engels escreveram o Manifesto Comunista (“Proletários de todo o mundo, uni-vos”). Acho que li isso numa placa de bronze na fachada do edifício.
O boneco mijão (Menneke Pis) é o Petit Julien, símbolo cultuado de Bruxelas. Fica perto da Grand Place. Todo mundo quer fotografar o moleque, então eu fotografei também.
De Bruxelas, pegamos um dia para passear em Bruges.
Um lugar romântico, apelidado de Veneza do Norte, por causa dos inúmeros canais por onde se fazem passeios de barco. Pra quem enjoa só de ver um copo d’água, o passeio pode ser de charrete mesmo, o que em Veneza não dá pra fazer.
O verão é a temporada das “moules-frites” na Bélgica. Ao contrário do que a lógica parece indicar, não se trata de mulas fritas
, mas de mexilhões com batatas fritas. Pra todo lado você vê placas indicativas: “Les moules-frites sont arrivés”. Enton, on a mangé.
Depois, pra fazer a digestão, fomos andar de barquinho pelos canais da cidade.
Dia seguinte, reta final. A caminho de Paris, ainda deu pra curtir uma paisagem de beira de estrada. Cavalinhos, a relva, bosques. E nenhum cheiro de Suíça.
Chegamos e fomos devolver o Megane, cerca de 4.500 km rodados. Em cidade grande o melhor é andar de metrô e ônibus, mas confesso que senti falta do carro à noite, pra rodar por Paris e não me preocupar com o relógio.
Cada um tem o seu visu preferido em Paris. Este é o meu. O Palácio da Conciergerie, à beira do Sena, denominado antecâmara da morte durante o período do Terror da Revolução Francesa. Era lá que funcionava o Tribunal Revolucionário e onde rolaram cabeças e magníficas perucas como as de Maria Antonieta. E eu acho esse troço bonito.
Das praças, esta é a mais civilizada que conheço. Place des Vosges. Fica no meio da metrópole, não tem carros, publicidade, gente fazendo cooper. Dá pra ouvir os passarinhos e fazer uma faxina mental, eliminando os neurônios mais supérfluos só de olhar a arquitetura em harmonia com os jardins.
A primeira vez que vi a Torre Eiffel foi da janela de um vagão do metrô, da linha verde, Etoile-Nation, cujo trajeto em parte é feito pela superfície. Foi depois de quase duas semanas em que eu estava na cidade, em 1983, e fiz de propósito, pra ter uma surpresa natural.
Surpresa natural foi a sobremesa de um jantar entre amigos e que a foto aí de cima não faz jus, de jeito algum. Os dois queijos artesanais da Mouffetard e a salada de frutas vermelhas além de encherem os olhos, os narizes e a boca de água, encheram também o abdômem que um dia um cardiologista cego disse ser protuso, para a minha completa revolta.
Esta nossa passagem por Paris acabou sendo relâmpago. Velhos amigos franceses, que eu havia conhecido durante um período em que vivi na cidade, tinham se mudado para o Vale do Loire e fizeram questão de que fôssemos pra lá. De TGV, foi apenas 50 minutos.
Este não é o Loire dos castelos. Mas o das grutas trogloditas, ainda hoje ocupadas como moradia. A cidade mais importante próxima de onde ficamos é Vendôme, por onde passa o rio Loir.
A casa dos nossos amigos fica em Mazangé, na encosta de um morro, de onde se pode avistar o Loir da janela.
Ou então esta paisagem acima.
Ninguém pode negar aos franceses que eles sabem fazer as coisas ficarem mais bonitas do que elas já são. A foto daí de cima é de uma casa troglodita. Mas troglodita gaulês, com pé de alecrim na porta, muitas flores e um cachorrinho pra garantir a bosta em que você vai pisar, com certeza, um milhão de vezes enquanto estiver em território blancbleurouge.
O Teco, que havia voltado ao trabalho, acaba de sair de novo, alegando indisposição estomacal. É que estou prestes a chutar, sem a mínima garantia de acerto, que a igrejinha aí de cima, gótico-flamboyant, é a Chapelle de Saint-Jacques, em Vendôme.
Uma bela vila, cortada pelo rio e pontuada por um jardim colorido e bem cuidado como só os franceses sabem fazer.
E, para despedida, a família Gregoire Partouche toda reunida e performática, linda, simpática, acolhedora e calorosa, exatamente tudo aquilo que dizem não ser os parisienses. Tudo bem, eles não são parisienses.
Esta foto era pra encerrar o post, cujo título foi perpetrado, em duas oportunidades, como De Roma a Paris de carro. Não só já abandonamos o carro, como não terminamos as nossas férias. Apenas deixamos Paris, após um pôr do sol arrasador sobre o Sena.
E fomos praquela cidade em que ninguém perde a hora, porque tem esse relojão que não nos deixa inventar desculpas para o atraso.
Verão em Londres é um acontecimento. A Trafalgar Square vira praia (desconte o fuso horário – lá são 4 horas a mais -, e se ainda for de dia em Londres, confira clicando aqui).
E o mercado de Covent Garden se enche de música e artistas de rua. Você não gasta um tostão pra ver o show.
Londres é talvez a cidade européia de personalidade mais original. Papo de inglês. Os táxis são diferentes, os ônibus também, assim como as cabines de telefone. Sem considerar que é tudo ao contrário. É um país para ambidestros.
Eu nunca fui ao Museu Rodin em Paris. Branqueira total. Vi pela primeira vez uma obra do cara nas ruas de Londres, os Burgueses de Calais, no jardim que fica atrás do Palácio de Westminster.
Ainda no quesito esculturas, nesta daqui parece que o golfinho tá mandando a mala da adestradora pro espaço ou talvez seja apenas a força do desejo sobre a minha imaginação. A Tower Bridge, ao fundo, é mesmo inspiradora. Era ali ao lado, na Tower of London, que os civilizados ingleses torturavam os seus presos. Hoje é ponto turístico dos mais animados.
Dizem que o Rio Tâmisa tinha um tremendo futum. Catinga braba. Um Tietezão. Hoje a gente já pode passear de barco e respirar ao mesmo tempo, porque limparam as águas faz tempo e, dizem, tem até peixe, que eu não comeria nem sob ameaça de ser levado à Tower.
Ficamos 5 dias em Londres. O último foi reservado pra Camden Town.
É espécie uma cidadela underground londrina, com um mercado meio punk, roupas, sapatos, chapéus e quinquilharias, que nos levaram a quase deixar as calças pra pagar o excesso de bagagem.
Velhos armazéns foram ocupados por pequenas lojas alternativas e bares que vivem lotados. O Regent’s Canal, por onde circulam barcos, passa por ali. Camden Town serviu de cenário para a gravação do mais influente álbum (era assim que se chamava) de música punk da história, o sensacional London Calling, do The Clash. E é com uma música do grupo que eu desisto por aqui de continuar a encher a sua paciência. Perdoe-me, eu imploro.
Leia também
De Roma a Paris de carro – 1ª parte


















































Perfeito. Já estou aguardando a terceira parte, seja lá do que for.
Fantástico, Beto!
O seu jeito de escrever é demais!
E as fotos eu adorei…
Adorei rever Bruges, um pouco de Paris, Grand Place em Bruxelas com seu jeito descontraido de escrever
Sempre deixando com água na boca…!!!!
Também quero amigos franceses assim!!!!
Adorei o texto e as fotos.
Ola,
Fantastica viagem.
Conheço algumas das cidades que visitarm…
Viiajar é maravilhoso…
Bom fim semana
Vitória
PS: As fotos estão divinas
Beto, pode começar a preparar a comemoração dos seus 10 mil acessos em breve…
Abraços!
Um primor de relato e fotos lindíssimas. A gente fica aqui, dentro do escritório gélido e desconfortável, só babando!
Beto, um viagem muito completo.
Lindas fotos y la mejor compañía para un buen viaje!!!
Tchau
Betinho, cara, demais esse teu relato. Mesmo sendo repetitivo, pois todo mundo aí em cima disse a mesma coisa, não tô nem aí… Amei o teu day-by-day!
Bjo na careca, Diogo
Beto,
Descobri vc por acaso quando procurava leasing de carro. Estamos planejando uma viagem para a França e a Italia agora em maio e a maior dificuldade que estou encontrando é alugar/leasing um carro em Roma e devolver em Paris (17 dias). Se vc puder dar mais detalhes (site, contato, preço, etc) de como alugou (fez leasing) do megane eu fico muito agradecido. Vou ler com calma todo os seus relatos de viagem, que numa primeira e rápida vista deu para sentir que é demais. Grande abraço,
Gilson de Londrina-PR
Gilson, 17 dias é o mínimo de tempo para o leasing, que pode sair um pouco mais caro do que o aluguel comum. Pra esse período, um econômico de leasing vai custar uns 900 euros. Para comparar os preços, leve em conta o tipo de seguro (alguns tem franquia, o leasing é seguro total, sem franquia). Fiz agora mesmo o leasing de um Peugeot 206. A Peugeot, pra carros econômicos, é mais barata que a Renault. Você deve consultar um agente de viagens para obter as tarifas de leasing. Tentei fazer pela internet, mas os representantes brasileiros da Peugeot são pouco eficientes. Portanto, acho mais seguro e fácil usar um agente de viagens. Aproveite para pedir uma cotação de aluguel e consulte você mesmo os sites da Hertz e da Europcar. Tenha cuidado com as contações da internet, às vezes omitem taxas ou não são claros a respeito da extensão do seguro. Como você vai devolver fora da França, acredito que o leasing seja mais vantajoso, mas há uma taxa adicional para devolução à distância.
Valeu Beto. Obrigado. Abraços.
ola muito bom, vcs estao de parabens,
gostaria de saber quantos dias durou a viagem?
Gino, se não me engano (esta viagem foi em 1997), foram vinte e três dias de carro, entre Roma e Paris. A partir de Paris, fizemos de trem.
Parabéns, Beto ! vamos novamente a Paris . Desta feita , no final de fevereiro e pretendemos, após o compromisso de trabalho, fazer o seu trajeto ao inverso: sair de Paris rumo a Provence, Toscana até Roma. Você tem o e-mail do Gilson Lopes ou de algum contato para reserva do carro ?
um forte abraço
Uau, deve ter sido lindo! Queria ir de Roma
a Barcelona, o que acha????
Acho ótimo, Patricia.