Almourol e Tomar

Outubro 25, 2007

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Portugal é um dos melhores lugares da Europa pra se viajar de carro. As distâncias não são grandes e as estradas, excelentes. Entre 98 e 2004 fomos várias vezes à terra de Cabral e fizemos algumas incursões ao norte e ao sul a partir de Lisboa, mais precisamente do Estoril, onde ficamos espetacularmente hospedados em casas de amigos e familiares.

Não tenho a pretensão de formular roteiros, tampouco posso dar altas dicas sobre onde comer e muito menos onde ficar, mas acho que as fotos e alguns comentários podem ajudar e incentivar quem planeja conhecer um dos mais antigos e conservados países do Velho Continente.

Nestas estadas em Lisboa, enquanto todos trabalhavam durante o dia, fazíamos incursões a alguns lugares a no máximo 1h30 de carro, de modos que, como diz a tia Manau, estávamos à noite em casa pra dividir o tinto, o chouriço, a sopinha, o Queijo da Serra amanteigado (e o curado também, mas isto é segredo de estado), a broa de milho e o calor da lareira e da amizade. Querem vida melhor?

A foto que abre este post é da Igreja São João Baptista, no centro de Tomar, cidade da região do Ribatejo, a 138 km de Lisboa. O caminho é a autoestrada que liga Lisboa ao Porto, a A-1, até a junção com a IP-6, que vai até a Guarda, na altura de Torres Novas. Aí seguimos as indicações para Almourol, pois queríamos conhecer o Castelo de Almourol, fortaleza romana que ocupa uma pequena ilha no leito do Rio Tejo.

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Castelos, palácios, mosteiros e conventos centenários mexem com a imaginação e ligam os tempos. Ao menos para mim, são uma das mais fortes razões para eu gostar tanto de viajar pela Europa, sobretudo pelo interior e pelas pequenas cidades. Portugal é especialmente pródigo nessas construções, representativas de vários períodos históricos, e ao contrário do que acontece nos países vizinhos mais desenvolvidos, o viajante ainda não precisa disputar a cotoveladas com hordas de excursionistas uma nesga de paisagem pra fotografar. Em Almourol, um barqueiro faz a travessia dos turistas que querem entrar no castelo.

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Outra característica intrigante de Portugal, certamente conseqüência do isolamento a que o país foi submetido pelos séculos de obscurantismo católico e pela longa ditadura salazarista, é que há lugares que parecem muito remotos, apesar de estar tudo ali, naquele retangulinho de 250 km x 650 km, a minutos, no máximo algumas horas, dos centros urbanos.

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Perto de Almourol há outros pontos de interesse, como Torres Novas, com importantes ruínas romanas, e Golegã, onde acontece em novembro a Feira Nacional do Cavalo, que deve ser bem interessante. Não fomos à feira, porque só descobri agora a existência dela, fuçando o Guia da Folha, que substitui em caráter de emergência a ausência do Teco. De lá, fomos direto a Tomar, cerca de 30 km ao norte. A cidade foi fundada por cavaleiros templários, cruzados que ajudaram os lusitanos a expulsar os mouros do território que viria formar Portugal. O rio Nabão corta a cidade e à entrada estão os Lagares d’El Rei, onde funcionou até 2005 a Fundição Tomarense.

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Tomar é uma jóia paisagística. O rio é bem tratado, contornado por grandes jardins.

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A principal rua de Tomar é a Serpa Pinto (segundo o Guia da Folha), que aparece na foto abaixo. Ao fundo, dá pra ver com algum esforço uma pontinha do Castelo Templário, parte do conjunto formado também pelo Convento de Cristo, a principal atração turística da cidade, a que deixamos de ir por causa do horário, pois preferimos andar pela cidade.

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Já no fim do dia, voltamos à praça da República, a principal de Tomar, onde está a Igreja de São João Baptista que abre este post. A foto abaixo foi feita no que se pode chamar de hora do rush.

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Acho Portugal um destino espetacular. A comida é uma das melhores, mais variadas, fartas e baratas da Europa; a língua é amigável; o povo, caloroso e hospitaleiro; as distâncias são curtas e as diferenças regionais são notáveis. Há história, arquitetura, natureza e um singular modo de vida. O tradicional e o moderno convivem e dialogam intensamente, como em poucos lugares do mundo. E, ainda por cima, tudo isso nos explica, como brasileiros.


Istambul é um bom lugar pra passar vergonha

Outubro 23, 2007

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Este post é só pra eu passar vergonha. Pra todo mundo ver como eu sou antigo, como as minhas fotos estão desbotando e como eu vivo tirando esqueletos do armário. Pra entender mesmo o tamanho do vexame, antes de seguir vendo as minhas fotos, clique aqui e veja como o Arnaldo do Fatos e Fotos de Viagens mostra o mesmo tema deste post. Ele postou em capítulos que eu numerei pra facilitar a leitura: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10 e 11. Achou deslumbrante? Então, tuma:

Minha viagem a Istambul foi em 1983, o meu ano… como é mesmo que se chamam os anos que dividem a nossa vida? Sabáticos? (Fui no dicionário e não tem nada a ver) Bom, cês entenderam, foi esse ano aí, em que passei todo ele viajando na Europa, com umas merrecas, unidade monetária da época, no bolso.

Eu vinha de quase um mês na Grécia, onde fiquei em Argos, no Peloponeso, e em Hânia, na ilha de Creta, catando laranjas e sendo surrado por sacos de azeitonas. Alguém me havia dito que em Istambul era tudo muito barato, a cidade era linda e eu podia ir de ônibus, desde Atenas, sem gastar muito.

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Na época, eu não estava muito preocupado com os destinos. Me interessavam mais os caminhos. Dei agora uma olhada no Via Michelin e vi que entre Atenas e Istambul são 1.134 km, um percurso a ser feito em aproximadamente 12h30 de carro. Mas na minha memória (se é que isto a que recorro com esforço pode ser chamado assim), eu havia embarcado no final da tarde em Atenas e levado uma noite e um dia pra chegar na fronteira. Já contei esta passagem em uma caixa de comentários no Viaje na Viagem, com alguns erros já corrigidos aqui.

A Turquia, na época em que estive lá, era uma importante cabeça de ponte da Otan. Aviões de caça cortavam o céu de Istambul várias vezes por dia, as avenidas ficavam às escuras durante a noite e as ruas eram cheias de soldados. O clima em toda a Europa naquele ano não era dos melhores. Havia uma sensação de que o mundo poderia ir pelos ares a qualquer momento, por causa do confronto EUA x União Soviética. Eu já havia ficado impressionado com a quantidade de caminhões de combate, cheios de soldados americanos, circulando pelas estradas alemãs. Só vendo entendi que a Alemanha era um país militarmente ocupado, 38 anos depois do fim da guerra.

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O blecaute em Istambul criava uma atmosfera estranha. Eu, supostamente de férias (na verdade, fiquei desempregado e vendi tudo o que tinha – motocicleta, geladeira, fogão, etc… – para pagar a viagem), no meio daquela fricção toda. E o estranhamento ficava ainda maior ao ver nas ruas algumas mulheres sob um mundo de panos sem triscar um só olhar.

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Estranhamento que desandou em dúvidas ao ser abordado num bar por dois rapazes turcos interessadíssimos na cultura brasileira, da qual nunca tinham ouvido falar. E que desaguaria numa imagem acabada nas conversas com outros mochileiros, de que pegar carona nas estradas turcas era mais fácil para homens de shorts do que para mulheres em qualquer traje. Histórias que também desandaram em exageros, como a de dois italianos sitiados num quarto de hotel de uma cidade do interior com uma turba de homens loucos para traçá-los no sentido bíblico. Quando se viaja sozinho, a insegurança pega na tua mão.

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Para completar o clima David Lynch, eu havia tido uma passagem esquisita em uma mesquita na cidade grega de Komotini, onde fui tirar o visto consular de entrada na Turquia. Com duas garotas gregas que conheci, entramos no templo e nos sentamos num canto, pra observar o povo rezando. Tudo muito respeitoso. Em cinco minutos estávamos rodeados por uns tipos barbados, com aquela cara plácida do Bin Laden, nos perguntando o que fazíamos ali, que não poderíamos permanecer pois não estávamos limpos. Cuméquié? Não respondo pelas minas, mas eu, pelo menos, tava de banho tomado!

Ainda não havia homens-bombas, nem mesmo guerra santa, mas o pau comia feio. O Al Fatah, com Yasser Arafat à frente, havia acabado de ser escorraçado do Líbano pelos israelenses, naquela guerra que destruiu Beirute. Achamos melhor obedecer e sair de fininho.

Tantas referências soturnas, e o fato de estar viajando sozinho há dois meses, não encobriram a certeza de que eu estava numa das cidades mais interessantes que eu já havia visto, impressão que permanece até hoje.

As lembranças concretas que tenho são imagens esparsas. O skyline da cidade, no contraluz do pôr do sol, com os minaretes das mesquitas espetando um céu repleto de gaivotas, milhares de gaivotas. A impressionante cantoria muçulmana chamando, de tempo em tempo, para a oração de frente para Meca. As mulheres de negro e com o rosto coberto. Um urso preso pela coleira passeando com seu dono. O Estreito de Bósforo e um restaurante sob a ponte, defronte a um mercado. Um peixe grelhado. A inacreditável idéia de ter um pé na Europa e outro na Ásia. Os templos imensos, Santa Sofia e a Mesquita Azul.

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O Grande Bazar, com seus corredores de tapetes, pedras, pratas e ouros. Móbiles, brincos e pingentes em forma de palhaço, com braços e pernas articulados, feitos de latão e coloridos a óleo.

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O Palácio de Topkapi, o harém inspirador, o diamante descomunal, os trajes bordados de ouro, os telhados da cidade e a caixa de jóias cuja tampa era um pesado elefante cravejado de pedras preciosas.

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Um dia volto a Istambul para visitar as muralhas de Constantinopla, que só vi ao partir, uma última imagem, quase perdida, através da janela do ônibus.


Jet lag de horário de verão

Outubro 16, 2007

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Blog dá uma trabalheira. Fiquei um tempinho sem palavras e logo tem gente batendo na porta, medindo a pulsação, telefonando pra hospital e necrotério. Tô vivo, na medida do possível. E completamente atordoado com esse horário de verão. Jet lag sem jet e sem ver a Torre Eiffel, o David de Michelângelo ou a Santa Maria in Trastevere ninguém merece. Ando com sono e com falta de sono nas horas erradas.

Mas nada tão incômodo quanto os megacongestionamentos que pa-ra-li-sam a Rio-Santos a partir da junção da Mogi-Bertioga e a Riviera de São Lourenço, em Bertioga, em qualquer feriadinho besta. Uma das razões é a bossalidade do tráfego pelo acostamento, prática que deveria ser combatida a tiros. Aqueles milhares de idiotas, entre eles eu, parados na fila contando com quantos cretinos se faz um congestionamento. Cretinos que passam zunindo pelo lado direito e vão se acumular lá na frente, no funil minuciosamente arquitetado pelos nossos geniais engenheiros civis.

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Eu, antigamente, me irritava de subir a serra em segunda. Agora vou pro Litoral Norte em primeira, saboreando cada 30 centímetros, antes de desligar o carro pra não arrombar de vez a camada de ozônio. Vencida a Mogi, seus problemas acabam. Até chegar à balsa de Ilhabela.

Vendo a alma pro diabo mas não encaro uma fila de 4 horas, depois de uma viagem que durou 6 em vez das 3h30 regulamentares, entre Santos e a Ilha. Como fez um velho amigo meu, que num mergulho em apnéia enfiou a cabeça numa toca pra olhar uma lagosta e ficou preso, olhamos a fila e resolvemos arrancar as orelhas. E, assim como com o meu amigo, deu certo. Fomos olhar a cabeça da monstra e encontramos a outra parte da família, a quem consignamos a nossa bagagem.

Abandonamos o carro em São Sebastião e fomos a pé, ou melhor, embarcamos a pé na maldita balsa, que além de representante escassa da raça, atraca num píer liso como pau de sebo, numa luta inglória contra os ventos e as correntes. Alguém precisa trazer os indigitados engenheiros pra conhecer o píer em Santos, aquele monumento da tecnologia de ponta (da Ponta da Praia, ao menos), em que a balsa atraca num berço, com braços dos dois lados, pra não ficar naquele vai não vai, puxa e estica corda, acelera pra frente e pra trás, durante eternos quinze minutos.

Finalmente, chega-se à Ilha, que ninguém nega o nome. Sou um homem rico. Todos sabem. Tenho uma mulher que eu amo, duas filhas criadas e que nem fui eu quem criou, um cão de raça, um gato adotivo e um Fiat Mille. E uma cunhada com casa de praia. É preciso esclarecer que eu adoro a minha cunhada, com ou sem casa de praia, mas também gosto muito de casa de praia. Ainda mais com uma vista destas.

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Foi um fim de semana atribulado. Depois de tanto congestionamento, ainda tive que ficar no controle do tráfego. Aéreo e marítimo.

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Aí mudaram as horas. E eu perdi 60 minutos de lazer, além de ficar com sono na hora de acordar e sem sono na hora de dormir.

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