Essa foto tá gravada na minha íris. É a Fortaleza da Barra, ou de Santo Amaro, que desde o século XVI guarda a entrada do estuário de Santos, a porta do porto. O pipoqueiro que me atendia, quando ainda mijava no berço e já comia pipoca, tinha ponto em frente, ou melhor, na avenida do outro lado do canal, na Ponta da Praia, porque a fortaleza fica na Ilha de Santo Amaro, Guarujá. De qualquer ponto das praias de Santos, se pode ver a velha fortaleza, encravada no morro, no meio do mato, sempre com um barco ou um navio passando em frente. A gente acostuma com as coisas e muitas vezes não percebe o que tem frente aos olhos.
A velha fortaleza, como você pode ficar sabendo aqui, foi construída nos tempos em que Portugal esteve sob domínio da coroa espanhola e é irmã das muralhas de Cartagena, no Caribe colombiano. É também um vestígio fundamental do assédio que corsários e piratas exerciam sobre a nascente Vila de Santos, ainda um apêndice de São Vicente, mas estratégica por causa das águas calmas de seu berço marinho natural e porta de entrada para o interior a ser desbravado.
A fortaleza ficou abandonada muitos anos e agora está nos trinques. Estive lá depois de muitos anos e é uma beleza ver que ela vai tão bem, com a realização de exposições e eventos. É, com certeza, um dos passeios mais bacanas pra quem vem a Santos. E para os santistas, que, como quase todo mundo, jamais fazem turismo na própria cidade.
Pra ir até lá, é preciso pegar um barco na Ponte Edgar Perdigão, na avenida Saldanha da Gama, Ponta da Praia. A passagem custa R$ 1,80 e tem saídas a toda hora, que nem busum. Junto à fortaleza, há duas grandes comunidades, originariamente de pescadores, o que gera um tráfego intenso de embarcações durante todo o dia. A travessia dura 5 minutos, se não houver algum naviozão passando e levantando marolas.
Estive lá há menos de 15 dias, uma terça-feira pela manhã, e o lugar estava vazio, só com os funcionários da administração e manutenção, jovens arregimentados nas comunidades vizinhas. Você, que obviamente não é cego, já viu o sol que tava. Com aquela muralha branca e o céu e o mar tão azuis em contraste, me senti em Santorini.
Obviamente, era só Santos. Pra ser justo, Guarujá. Santos fica lá atrás, pra onde aponta o canhão.
É um passeio muito mais barato e interessante do que o de escuna pela baía. Não tem balanço, dá pra fotografar o visual sem risco da foto sair tremida e fica-se livre do pagodão, da macarena e do axé no talo, top hits de 11 em 10 escunas turísticas. A foto aí de baixo não é só pra mostrar o veleiro, mas o edifício Enseada, em segundo plano, um dos dois projetados em Santos pelo controvertido e valorizado arquiteto autodidata Artaxo Jurado e que tem uma das vistas mais cinematográficas da orla, a partir das suas varandas.
O casarão abaixo era a sede do forte.
Dois canhões guardam a sua varanda. Dentro, funciona a administração do museu, salas de exposições e um mezanino onde são administrados cursos e outras atividades culturais.
A Fortaleza da Barra, por sua importância histórica e arquitetônica, além da posição privilegiada na paisagem, é a jóia do Circuito dos Fortes, que reúne outras construções militares situadas na Baixada Santista.
Ao lado da sede, a capela tem um mosaico em pastilhas de vidro de autoria do pintor nipo-brasileiro Manabu Mabe, um apaixonado pela fortaleza.
Uma exposição com quadros abstratos de Mabe pode ser vista no local até o dia 28 de fevereiro, de terça a domingo, das 8 às 18 horas.
A fortaleza está ligada por uma trilha na encosta do morro a uma praia que eu ia de vez em quando, numa época em que possuía longos cabelos louros. Outra encarnação, portanto. A praia do Góes tinha águas transparentes, quase sem ondas, uma lagoa morna. E a trilha tem ótimas paisagens, como esta aí em baixo, com os prédios da Ponta da Praia ao fundo.
Entre o Góes e a fortaleza, tem uma prainha, que fiquei sabendo agora chama-se Cortadura. Ainda tem bom aspecto, como se pode ver.
O melhor é ir fora do fim de semana, pra não enfrentar a muvuca.
O tráfego no Canal da Barra é barra. Não é só catraia nem traineira, não. Tem transatlânticos e mega-cargueiros passando toda hora. Se olhar avião subir e descer já foi atração de fim de semana em Sumpa, ver o entra e sai dos navios pode muito bem servir de distração. Confesso que até hoje não cansei de ver o movimento e ouvir o rugido dos apitos (navio tem apito?).
Pra ficar na real e não vender gato por lebre, é bom avisar que a água do estuário é uma porcaria. Tem tudo quanto é tranqueira. Se afastar os sacos e garrafas de plástico, abstrair dos seres invisíveis, e tiver um calor desgramado como nesse dia aí, dá até pra tomar um banho, mas isso não é, definitivamente, o forte, sem trocadilho, do nosso passeio.
A praia do Góes, dos meus tempos de condicionador, não existe mais. Nem vou mostrar, mas a ocupação é fim de feira total. A ida vale pela trilha (leve, de 10 minutos, sem subidas e descidas). Lá tem um atracadouro onde pára a barca que leva de volta. Fui a um boteco (Bar do Meio) beber água e não resisti a um comercial caiçara que tava saindo pros trabalhadores locais. Não posso ver peixe, vivo, morto, frito ou assado. Não resisti e mandei ver, num exemplar sabor óleo de soja. Com espírito viajante, dá até pra gostar, tendo em vista o lindo dia, o calor, a paisagem e a gula canina.
A visita, incluindo tempo de navegação, a caminhada pela trilha, uma pausa para hidratação, sem almoço e banho de mar, não exige mais do que 2 horas.






















Janeiro 28, 2008 às 8:50 pm
Oba, Beto!
Post novo, sugestão de passeio novo!
Beijos e Feliz 2008!
Janeiro 29, 2008 às 8:38 am
Oba, Mô! Feliz procê também…
Janeiro 29, 2008 às 3:54 pm
Belíssimas fotos !!!! E que bela dica, o forte que eu desconhecia.
beijos,
Majô
Janeiro 29, 2008 às 9:39 pm
Que belo texto, que belas fotos, que leitura bacana. Você PRECISA (ou melhor, TEM que vir ao Rio pra conhecer as fortalezas de nosssa cidade e empolgar-se como elas, tão lindas quanto esta aí.
MUITO bacana mesmo.
Parabéns
Janeiro 30, 2008 às 8:11 am
Majô e Arnaldo, vou ao Rio e vocês vêm a Santos, ok?
Fevereiro 4, 2008 às 8:43 pm
Beto, sempre adoro suas dicas de Santos, essa cidade que mora no meu coração!!!!!
Fevereiro 6, 2008 às 6:15 pm
Que passeio bacana. E essa igrejinha super singela? Uma belezinha.
Com certeza está na lista de uma próxima ida a Santos, junto com muitas outras…e a viagem coletiva, subiu no telhado?
Fevereiro 6, 2008 às 8:36 pm
A capela, Emília, tem um mosaico do Manabu Mabe feito com pastilhas de vidro bem bacana. Antigamente era o paiol da fortaleza. É mesmo um passeio a ser feito numa passagem por Santos, se estiver um dia de sol. A viagem coletiva? Continuo à disposição, mas tudo em grupo é mais difícil mesmo. Um dia sai… Beijos
Fevereiro 7, 2008 às 6:43 pm
Ta faltando o trackking na trilha pra Praia do Góes, pô!
Fevereiro 21, 2008 às 5:41 am
Beto,
Não conhecia não!!! Assim que eu pintar aí no Brasil vou programar o passeio. Ótima dica!!
Abs!
Fevereiro 21, 2008 às 11:51 am
Márcio, se passar por aqui, avise, para um café, um chope ou apenas um abraço. Valeu.
Fevereiro 25, 2008 às 2:21 pm
Oi administrador do Blog, tudo bom? Queria te fazer uma pergunta… e o Beto, hein?! Que fim deu no cara? Porra, curtia pacas ele, baita gente boa, animadão e tal… uma pena ter dedsaparecido. Fico triste. Agora vou ter que arranjar um outro careca pra pegar no pé. Talvez a Largatixa conheça um outro assim…
Sds chororas,
Diogo
Fevereiro 27, 2008 às 2:42 pm
Essas fotos do paisagem e as fotos dos barcos me trasladan al Brasil que eu conosco e adoro. Eu não conosco Santo Amaro, mais as fotos tienen um ambiente familiar que me lembra a outros lugares de Brasil que sim conosco e he estado. Um post íntimo. Me gosta.
Março 5, 2008 às 2:13 am
lindas fotos! parabéns!
Março 22, 2008 às 10:16 am
E aí, quando é que você vai deixar essa preguiça atávica de lado e colocar um posto novo por aqui, porra?
Agosto 3, 2008 às 2:32 pm
Vc me parece um intelectual meu caro!
Parabens pelas informacoes que publicou!
Servem como uma otima referencia sobre as belezas brasileiras!
Agosto 4, 2008 às 11:06 am
É que eu uso óculos, Juliana. Quando eu não usava óculos, eu não era assim…
Novembro 4, 2008 às 8:46 am
oi camarada tudo bem, gostei imenso do seu trabalho fotografico tem umas fotos maravilhosas, pois deve continuar a progredir nesse sentido , aos que nascem com a missâo de publicar ,e os que nascem com a missâo de observar , eu apenas sei observar ,e creticar , e a minha critica sobre o seu trabalho talentioso é d’e 20 pontos na escala de” 1para 20 obrigado pela seu visâo ,e oportunidade ,de tranmitir os teus conhecimentos aos que nâo têm essa possiblidades , bem hajas um abraço , de Paris França ,
Junho 20, 2009 às 8:00 pm
Parabéns pela reportagem fotográfica e descrição do passeio!
Foram premiados com um dia lindo no lugar mais pitoresco da baixada santista!
Desenvolvi um projeto de ocupação temática autosustentável da Fortaleza e aguardo as conexões políticas de executá-lo através da OSCIP HabitatBrasil.Org.
Julho 6, 2009 às 9:24 pm
adorei sua narrativa, o texto flui com a naturalidade de um papo de amigos, eu assim com você, sou apaixonado por essa cidade, e tento agora, com alguns anos de atraso, mostrar um pouco de Santos e da região através de fotos, no meu site tem varias fotos que tirei recentemente na Fortaleza da Barra.
um abraço e parabéns