Nenhuma cidade no mundo foi tão cantada quanto Paris e quem faz muxoxo quando se fala nela pode ser alvo de olhares mortíferos que vão do irônico debochado ao atônito aterrorizado. Mas a verdade é que muita gente, mais do que eu posso acreditar, não vê nada de mais na capital francesa. E nem por isso merece ser apedrejada.

Naqueles remotos idos de 83, eu saí de casa uma noite, em pleno Boulevard Saint Germain, e caminhando ao lado de um casal de meia idade fui capturado pelo seguinte diálogo em português do interiorrrr (com aqueles erres pronunciados com a língua dobrada) de Sumpaulo: Mulher- Tamo andano, andano, andano i até agorrrra eu nu vi nada! Marido (cabeça baixa, ar de decepção) - Cê nu viu nada? Mulher- Nu vi nada! Prrra mim isso aqui é uma porrrcaria.

O acento caipira e a queixa ingênua e sincera da mulher deram vontade de rir, mas me contive, de pena daquele pobre marido que deve ter ralado o couro pra levar a dita cuja numa viagem que se pretendia inesquecível e romântica. Mas é assim, tem gente que não gosta de camarão e de bacalhau. E, pasmem, tem quem não goste de ovo, manteiga e de Paris, gostos que sempre acreditei devessem estar gravados no DNA humano.

Até há pouco eu tinha uma dúvida: qual a cidade de que eu mais gosto? Roma, Rio, Lisboa, Londres, Amsterdã, Firenze? Os 3 dias e meio que passei em Paris no último mês de maio resolveu de vez esta questão. Todas as concorrentes são ótimas, umas melhores nisto, outras naquilo, mas como cidade (eu digo a cidade inteira, o conjunto, como soma das partes), Paris é irresístível e imbatível.

Eu até entendo a impressão daquela mulher. Paris fica na Terra, não no paraíso. É uma cidade viva, tem bosta de cachorro pra todo lado, muitos mendigos, bebuns e gente fedida de cabelo sebento.

Nem todos gostam da atmosfera de Babel. A metrópole que atrai todas as culturas. A multidão multiétnica e colorida, brancos, negros, orientais de todas as nuances.

O metrô, personagem central da cidade, também pode ser assustador. Há estações fétidas, sujas, cheias de ratos. Multidões circulam nervosas e comprimidas naqueles tubos azulejados durante todo o dia. Atravancar o caminho de quem tem pressa é uma boa maneira de entrar em contato com a folclórica falta de educação do parisiense. Nas estações ou perdidos num corredor úmido e imundo, músicos solitários tocam diante de um chapéu vazio de moedas.

Eu adoro essa zona. E entre todas as babéis que conheci, nenhuma tem edifícios, ruas, praças, avenidas, jardins, museus, vitrines e uma paisagem urbana de perder o fôlego, a cada esquina, como Paris. Sem falar dos restaurantes, das padarias, das charcuteries, das inacreditáveis seções de queijos e de vinhos dos supermercados.
Ficamos hospedados num hotelzinho (que descobri através do site Conexão Paris, da mineira Maria Lina, e sobre o qual vou escrever num breve e futuro post) situado no quadrilátero entre o Palais Royal, a Place Vendôme, a Opera e o Louvre. Quase esquina da rua Saint Honoré. Praticamente no coração geográfico, histórico e cultural da cidade. O que nos permitiu usar mais os próprios pés do que o transporte coletivo urbano para passear, inclusive à noite.

Não há muito o que planejar para uma estada de apenas 3 dias em Paris. Entre as ruas e o interior dos museus, optamos pelas ruas, que em Paris valem por todos os museus da maioria das cidades do mundo somados. A única exceção foi o Museu Rodin, que não conhecíamos e que tem grande parte dos seu atrativo nos jardins a céu aberto, repletos das esculturas do seu Augusto.
Ou seja, optamos por ficar como baratas tontas perdidas nas ruas de Paris.

Escrito por Beto 



Escrito por Beto 

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