Baratas tontas zanzam pelas ruas de Paris

Junho 11, 2008

Nenhuma cidade no mundo foi tão cantada quanto Paris e quem faz muxoxo quando se fala nela pode ser alvo de olhares mortíferos que vão do irônico debochado ao atônito aterrorizado. Mas a verdade é que muita gente, mais do que eu posso acreditar, não vê nada de mais na capital francesa. E nem por isso merece ser apedrejada.

Naqueles remotos idos de 83, eu saí de casa uma noite, em pleno Boulevard Saint Germain, e caminhando ao lado de um casal de meia idade fui capturado pelo seguinte diálogo em português do interiorrrr (com aqueles erres pronunciados com a língua dobrada) de Sumpaulo: Mulher- Tamo andano, andano, andano i até agorrrra eu nu vi nada! Marido (cabeça baixa, ar de decepção) - Cê nu viu nada? Mulher- Nu vi nada! Prrra mim isso aqui é uma porrrcaria.

O acento caipira e a queixa ingênua e sincera da mulher deram vontade de rir, mas me contive, de pena daquele pobre marido que deve ter ralado o couro pra levar a dita cuja numa viagem que se pretendia inesquecível e romântica. Mas é assim, tem gente que não gosta de camarão e de bacalhau. E, pasmem, tem quem não goste de ovo, manteiga e de Paris, gostos que sempre acreditei devessem estar gravados no DNA humano.

Até há pouco eu tinha uma dúvida: qual a cidade de que eu mais gosto? Roma, Rio, Lisboa, Londres, Amsterdã, Firenze? Os 3 dias e meio que passei em Paris no último mês de maio resolveu de vez esta questão. Todas as concorrentes são ótimas, umas melhores nisto, outras naquilo, mas como cidade (eu digo a cidade inteira, o conjunto, como soma das partes), Paris é irresístível e imbatível.

Eu até entendo a impressão daquela mulher. Paris fica na Terra, não no paraíso. É uma cidade viva, tem bosta de cachorro pra todo lado, muitos mendigos, bebuns e gente fedida de cabelo sebento. 

Nem todos gostam da atmosfera de Babel. A metrópole que atrai todas as culturas. A multidão multiétnica e colorida, brancos, negros, orientais de todas as nuances. 

O metrô, personagem central da cidade, também pode ser assustador. Há estações fétidas, sujas, cheias de ratos. Multidões circulam nervosas e comprimidas naqueles tubos azulejados durante todo o dia. Atravancar o caminho de quem tem pressa é uma boa maneira de entrar em contato com a folclórica falta de educação do parisiense. Nas estações ou perdidos num corredor úmido e imundo,  músicos solitários tocam diante de um chapéu vazio de moedas.

Eu adoro essa zona. E entre todas as babéis que conheci, nenhuma tem edifícios, ruas, praças, avenidas, jardins, museus, vitrines e uma paisagem urbana de perder o fôlego, a cada esquina, como Paris. Sem falar dos restaurantes, das padarias, das charcuteries, das inacreditáveis seções de queijos e de vinhos dos supermercados.

Ficamos hospedados num hotelzinho (que descobri através do site Conexão Paris, da mineira Maria Lina, e sobre o qual vou escrever num breve e futuro post) situado no quadrilátero entre o Palais Royal, a Place Vendôme, a Opera e o Louvre. Quase esquina da rua Saint Honoré. Praticamente no coração geográfico, histórico e cultural da cidade. O que nos permitiu usar mais os próprios pés do que o transporte coletivo urbano para passear, inclusive à noite.

Não há muito o que planejar para uma estada de apenas 3 dias em Paris. Entre as ruas e o interior dos museus, optamos pelas ruas, que em Paris valem por todos os museus da maioria das cidades do mundo somados. A única exceção foi o Museu Rodin, que não conhecíamos e que tem grande parte dos seu atrativo nos jardins a céu aberto, repletos das esculturas do seu Augusto.

Ou seja, optamos por ficar como baratas tontas perdidas nas ruas de Paris.


No bico do Corvo

Junho 8, 2008

O Corvo sempre aparece com umas velharias no bico. Mas o Corvo é bico fino. Então sempre vale a pena botar na roda. Françoise Hardy é um ícone discreto dos anos 60. Rita Lee copiava o seu visual e o sussurro no cantar nos primeiros discos dos Mutantes. Fui olhar o site da gata e, passados 40 anos, …

… ela continua gataça. Sem botoque. Sem corantes. E francesíssima.

O youtube do Corvo vai embaixo


Mora, na filosofia…

Junho 4, 2008

A arapuca de todo turista é achar que conhece um país e um povo só porque esteve lá durante alguns dias. Eu não fujo à regra.

Tive, em 1983, um ano inteiro na Europa. Visitei cidades da Alemanha, Áustria, Grécia, Turquia, Itália, Holanda e fiquei 8 meses vivendo de bicos em Paris. Quando cheguei, não falava bon jour e achava que bon soir era a revelação de um estranho gosto dos franceses pela sudorese.

Aprendi um pouco da língua de Molière no tranco e sempre tenho a sensação de falar como índio de filme americano, misturando verbos no infinitivo em orações que se referem ao passado, além de ter durante muito tempo penteado cavalos (chevaux) e montado em cabelos (cheveux).

Depois de algumas viagens exclusivas a Portugal, ocasiões em que pudemos aprender um pouco a língua lusitana e afastar o risco de entrar na bicha errada, resolvemos agora fazer aquilo que nos cursos chamam de “imersão” e passamos um mês inteiro na França, em casas de amigos, falando sempre a língua nativa.

Como bom turista, acho que fiquei conhecendo os franceses um pouquinho melhor. Ao menos os que cruzei pelo caminho e a sociedade que a tevê, os jornais e as revistas revelam cotidianamente. Também aprendi um grande número de palavras novas, que prometo usar sempre que surgir a oportunidade.

Mas o que eu queria dizer, desde o princípio da enrolação, é que uma das especialidades dos franceses é inventar frases e definições que acabam por representar o caráter da cultura que constróem há centenas de anos. Nesta viagem que acabamos de fazer anteontem, terça, 3 de junho, eu me vi entre dois pensamentos que sustentam a sociedade francesa. A inscrição no porquinho da foto lá de cima e as três breves palavras que coroam o Hotel de Ville em Paris pra mim resumem o que há de melhor na França.