Vincent viu aquele campo pontilhado de papoulas vermelhas e falou pra quem tava do lado: “Me segura que eu vou ter um troço!”. E teve. Aconteceu de novo depois. Diante da roça a perder de vista de girassóis, o troço engrossou. Uma febre que só sarou com o suicídio, porque nem arrancar a orelha aliviou.
Cézanne, Matisse, Picasso, e quem mais ficou exposto àquela luz, aos azuis, lilazes, ocres, vermelhos e amarelões, aos rabiscos do vento e do sol varando sombras entre os galhos e folhas das árvores, também tiveram as suas epifanias. E se não tiveram, foi em busca delas que eles foram para lá e onde realizaram as suas melhores vidas.
Afinal, o que é que a Provence tem? Sempre ouvi dizer que era a luz. Varrida permanentemente pelo Mistral, um vento veloz que desce dos Alpes em direção a Marselha, a região tem o ar seco, límpido, com um clima ameno e um solo calcáreo poroso, onde a água penetra e se distribui generosa, alimentando plantações, florestas, ervas aromáticas e campos de flores coloridas e perfumadas.
A natureza sem o homem é quase uma natureza morta. São os usos e costumes, a presença humana na paisagem natural, que fez e faz da Provence um quadro pra ser pintado. De um jeito insano e incomum.
Quando vamos pra lá, buscamos o olhar varrido dos artistas meio doidos. Vamos pra provar da droga que produzimos em nosso laboratório cerebral, movido pelos cinco sentidos, e que não está sujeita à repressão moral ou policial. Vamos pra alucinar na real, sem risco de overdose. Ter as nossas epifanias.
A Isabel O., numa caixa de comentário, perguntou o que maionese tem a ver com viajar, pois eu, no último post, havia mencionado a relação entre o verbo e o substantivo. A Isabel é portuguesa e às vezes se perde nas diferenças de expressão do idioma. Pois bem, Isabel, viajar na maionese é o que fiz nesta introdução.
A razão toda da viagem patrocinada pela Hellman’s (homem do inferno?) é que vou falar de Saint Remy de Provence, onde Vincent Van Gogh viveu, internado como louco, e pintou o que via de dentro da sua esquizofrenia.
Na verdade, Saint Remy não vai aparecer, pois o dia era da Transhumance, uma festa folclórica de primavera, que representa a condução dos rebanhos de milhares de ovelhas para as terras altas nos Alpes, onde passam o verão. Hoje, os bichos vão na boa, acomodados em caminhões, mas antigamente iam camelando, se é que se pode dizer assim, conduzidos pelos pastores e seus cães.
A Transhumance em Saint Remy aconteceu no dia 12 de maio, uma segunda-feira, e era o único compromisso com data e hora marcadas da nossa excursão. Chegamos atrasados, é óbvio. Nos perdemos nos desvios para cruzar Cavaillon e quando chegamos todos partiam.
Vocês podem achar estranho, mas eu estava com vontade de ver ovelhas. Não é nenhuma espécie de perversão sexual, apenas um impulso infantil, daqueles que nos faziam saltar da cadeira pra ir à janela ver o elefante do circo, na caçamba de um caminhão, anunciar o maior espetáculo da terra.
Pois não havia uma única alma ovina nas ruas de St. Remy, cidade natal de Nostradamus.
Fomos encontrar a bicharada reunida numa colina fora da área urbana.
Além das ovelhas todas reunidas numa pessoa só, havia uma grande comemoração. Centenas de locais almoçavam ao ar livre, em mesas comunitárias.
Francês, como o europeu de um modo geral, adora comer ao vento. Não vi o menu, mas era churrasco, merguez, entrecôte. Contra todas as probabilidades inerentes a esse tipo de evento, não vi frango nem farofa.
Mas a idéia de amarrar o burro à sombra tava lá, numa representação escancarada do modo de vida provençal.
Ovelhas e carneiros sempre me pareceram a versão zoológica do Harpo Marx.
Mas elas são muito mais do que isso. São um povo unido.
Que berra por seus direitos…
… e adora tratamento vip como comida na boquinha.

Mas a grande vantagem de ser cordeiro, francês e de quatro patas, é poder pastar livremente sem nunca ter corrido o risco de ouvir o Zé Rodrix se esgoelar em Casa no Campo.
Antes que este post descambe de vez, é melhor mudar de assunto e voltar ao Van Gogh. Além de ter vivido talvez alguns dos piores dias de sua vida em Saint Remy, ali pertinho, em Les Baux de Provence, ele é até fevereiro de 2009 protagonista de uma exposição sensacional na Cathedrale d’Images, uma velha pedreira desativada em cujas entranhas são realizadas exposições audiovisuais magníficas, como o Jorge Bernardes, do Gira Mundo, já havia indicado há tempos num post em seu blog.
É, como disse o Jorge, uma atração imperdível da Provence.
O espaço em si já vale a visita. São enormes galerias lavradas na rocha, em cujas paredes (e também no chão) são projetadas imagens, acompanhadas por música clássica. O ambiente é mesmo o de uma catedral, em que as projeções fazem a vez de afrescos.
A exposição de Van Gogh descreve a trajetória do pintor, com fotos e reproduções dos quadros.
É uma aula ilustrada das suas influências, das personagens de seus retratos, da fúria com que reproduzia as cores e os movimentos da natureza. É ao mesmo tempo uma realização impactante, que nos fez permanecer ali por mais de 1 hora, emendando duas seções seguidas.

Tenho relativa noção dos meus limites e vou poupá-los da tentação de escrever sobre o olhar de Van Gogh. É melhor pegar a estrada de volta pra casa. Não sem avisar que a exposição de 2009 na Cathedrale d’Images será sobre Picasso, outro morador apaixonado pela Provence.
O que será que eu tenho pra fazer em 2009? Quem sabe a resposta esteja na foto abaixo?
Clique nos títulos para outros posts sobre esta viagem, na ordem em que foram feitos
Baratas tontas zanzam pelas ruas de Paris
Tropeçando nos lábios de Emmanuelle Béart


































Escrito por Beto 


























































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