De onde vem o baião

Janeiro 30, 2009

ermete2Tava eu navegando quando dei de cara com esta foto. É do meu avô, que a esta altura teria uns 120 anos. Algum primo botou na rede. Quando fizeram essa foto eu devia ser muito pequeno, ou talvez nem tivesse nascido.

Lembro de achar que ele andava muito, por ir da casa dele à minha a pé. Lembro dele usar chapéu e de ser muito magro, mas eu não tinha malícia pra registrar o olhar e a pose cheia de marra.

O meu avô chamava-se Ermete, Ermete Pasqualini. Nunca vi mais ninguém chamado Ermete (*), mas obviamente deve haver muitos, eu é que não viajei o bastante.

O tipo não era exatamente um monge, vê-se. Eu pouco convivi com ele, mas percebia o carinho que ele tinha por mim, no meio de dezenas de netos.

Ele chegou em São Paulo no dia 24 de julho de 1891, com 5 anos. Era o menor dos filhos de Luigi e Filomena, que obviamente não conheci. Seus irmãos, eram Felice, de 8 anos; Giorge, 12; Carolina, 16; Cesira, 19; e Luigia, 21.

occhiobello

Não sei por que sairam de Occhiobello (na foto, capturada no Google Maps), uma cidadezinha à margem do Pó, na província de Rovigo, região do Vêneto, para vir morar em São Paulo. Com certeza eles não vieram num cruzeiro turístico dançando a Macarena. A macarena, na época, era muito mais embaixo.

Não tenho a mínima idéia do que aconteceu com a família. Pulverizou.

O velho casou com Catarina Pulicci, filha brasilleira de italianos acho que do Friuli, fronteira com a Áustria, com quem teve 8 filhos, entre eles meu pai. Foi motorista de táxi e dono da padaria da minha avó (sem gracinhas com a avó dos outros, hein!), mas eu lembro dele mesmo é fumando a piteira, recostado numa cadeira de balanço, num velho chalé no Campo Grande, em Santos, onde havia um galinheiro incrível e muitas árvores frutíferas.

Adorava a mão dele. Quando a gente chegava, ele estendia a direita para o beijo: “Bênção, vô!”.  Não era um ritual ruim (ruim era o patriarcalismo). Eu gostava daquelas mãos cheias de ossos e veias e até hoje adoro mãos assim. Deviam também ter cheiro de tabaco, porque ele fumava adoidado. A foto taí pra não me deixar mentir o tempo todo. Deve ter exercido uma forte influência sobre nós, pois meu pai fumava que nem doido, meu irmão foi atrás e eu, com no máximo 7 anos, fiquei uma vez de tocaia ao lado da varanda de casa, recolhendo as guimbas que ele arremessava para matá-las escondido.

Morreu completamente esclerosado, paquerando enfermeiras e ameaçando enfermeiros. Seu último gesto digno de registro, que eu lembre, foi ter saído nu pelos corredores do hospital.

O que isso tem a ver com O meu lugar? Adivinha!

(*) Atualização: consultando o Oráculo de Delfos, descobri que Ermete é o mesmo que Hermes, um nome, como todo mundo sabe, comum nas músicas do Benjor.


Não é por falta de assunto

Janeiro 8, 2009

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Sabe quando você quer mas o corpo não obedece? Corpo, no caso, compreende o que me resta de cérebro. Passei estes longos dias de ausência rabiscando rascunhos, sem concluir nenhum, por causa de uma dor no braço e uma preguiça atávica. Pois bem, tô aqui fazendo a fila de posts andar, pra não pensarem que o blogueiro morreu de vez. E demonstrar que a vontade vence a tendinite e a lerdose, ainda que isto, no meu caso, ainda esteja para ser comprovado cientificamente.

Recentemente, o Ricardo Freire, do Viaje na Viagem, mencionou o meu blog num de seus textos em Época, o que fez eu me sentir bem e mal ao mesmo tempo.

A sensação boa é óbvia, pela referência feita por um cara cujo trabalho eu admiro, dadas a graça do estilo e a qualidade das informações. A má fica por conta de receber visitas novas, a partir do link que o Riq fez no site da revista, com o blog desatualizado, sem ter completado o relato da viagem à Provence e à Côté d’Azur, mesmo com um monte de fotos de lugares lindos confinadas ao escurinho do HD e que eu prometo, um dia, trazer à luz dos monitores.

Com o devido pedido de desculpas pelo cavalo de pau nesta conversa, todos devem ter notado que no final do ano, entre pernis e antiácidos, explodiu a guerra na faixa de Gaza. Fato quase tão previsível, e, digamos, costumeiro, quanto a azia e a culpa causadas por aqueles (eu disse aqueleSSSS) Bolos Reis que devorei às escondidas, pedaço a pedaço, amêndoa por amêndoa, numa blitzkrieg individual que deflagrei contra as baterias de tupewares antiaéreos espalhados pela cozinha da minha casa.

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Se por um lado eu sou frio e impiedoso no extermínio de Bolos Reis, sou completamente avesso ao extermínio de vidas humanas, sobretudo à minha própria e às dos que me cercam. Digo isto porque amigos meus estavam com viagem marcada para o Egito, Jordânia e Jerusalém, antes de explodir essa guerra escrota. Pensei que, se eu estivesse no lugar deles, talvez cancelasse a viagem ou, no mínimo, refizesse o roteiro em direção oposta ao sinistro e fui olhar no mapa. As alternativas seriam, a partir do Cairo, as ilhas de Creta, Sicilia, Malta. Ou a Tunísia. Mas os meus amigos mantiveram, para minha aflição, o Vale dos Reis e Petra, na Jordânia. Acho, espero, desistiram da Terra Santa. E tudo vai dar pé, porque sempre dá, e o passeio ainda irá render boas histórias.

A viagem deles, no entanto, me fez pensar nos motivos por que eu nunca considerei conhecer aquele pedaço tão interessante, e próximo, do planeta. Eu jamais pensei em viajar para o Oriente Médio. Parei na Turquia, ou melhor, em Istambul, e pra falar a verdade, nem sei muito bem como eu fui parar lá. Naquela época, entrei numa mesquita sem a menor noção do que estava fazendo, mas fiquei assustado quando um grupo nos cercou e disse que éramos impuros.

Os caras, como todo mundo sabe, se lavam (numa variação do banho tcheco) antes de adentrar ao templo.

De fato, além de estarmos ali por motivos aparentemente idiotas, não fizemos corretamente as nossas abluções. Acho mesmo que eu estava com chulé. Nada mais natural, portanto, que os fiéis da igreja nos pedissem, gentis e subrepticiamente ameaçadores, que saíssemos rapidinho dali.

Esse tipo de situação me irrita por um motivo. Estou certo de que aqueles caras, fora da igreja, tinham muito mais chulé do que eu (que sofria na época um surto casual de budum podológico, devido ao uso contínuo de uma indescritível bota Vulcabrás terracota  e meias de lã tão mal lavadas que podiam manter-se em pé mais equilibradas do que eu, o que não é nenhuma vantagem). 

Toda religião tem regras idiotas, como na católica, que entre outras não permite entrar de bermudas em seus templos, um dos motivos que me levaram a abandonar a vida religiosa, ainda na adolescência. 

Quando viajo, gosto, entre outras coisas, de ver igreja, templo budista, sinagoga, mesquita, ruína, coluna dórica, catacumba, aqueles corpos retorcidos e empedrados de Pompéia, o pó da história cobrindo o chão. Gosto mais ainda de travar contato com as diferenças culturais, submergir no estranhamento. É como ler um livro, ver um filme, uma peça, só que a gente tá dentro do cenário e ele é real, tem cheiro, som, sabor e textura.

Mas tenho alergia à pregação e ao fundamentalismo religioso. Prefiro ter chulé. Estive em Santiago de Compostela, Assis e posso dizer que frequento o Vaticano. Mas nunca fui a Fátima, nem a Lourdes, que me parecem as versões mais próximas, dentro da minha ignorância universal, a Meca e a Jerusalém. A semelhança está no tipo de peregrinação e nas demonstrações selvagens de fanatismo sadomasoquista. Aquele negócio de bater com a cabeça no muro, carregar vela em formato de perna, chicotear as próprias costas,  andar de joelhos e outras demonstrações de bossalidade arrogante e pretensiosa me metem medo e embrulham o estômago.

Não estou certo de que estes são os motivos para eu nunca ter considerado ir ao Oriente Médio. Na verdade, o mais provável é que eu não tenha tido fundos para fazer essas viagens e ao mesmo tempo satisfazer a minha vontade, até o momento não saciada, de voltar a Paris, Barcelona, Lisboa, Roma e às suas respectivas adjacências. Mas faço aqui uma promessa: se eu ganhar na mega acendo uma vela do meu tamanho em frente ao Taj Mahal e, assim que os meninos e meninas  judeus e palestinos começarem a fazer troca-troca, mènage à trois, swing e/ou sexo à papai e mamãe, jogo flores pra Iemanjá no Mar Morto.

Que deus nos proteja dele mesmo.

Saravá e boa sorte aos meus amigos em viagem e a todos os que, na Palestina, sobrevivem aos mísseis  e aos livros sagrados.