Quinta-feira sem graça, nem sol, nem chuva, temperatura assim-assim. Era uma tarde dessas, como hoje, em Saint Tropez, há um ano. Nada pra fazer, a não ser repetir clichês.

Um dia em busca do pain aux raisins perdido. Um dia olhando os babacas de frente pro mar. Um dia pensando em como eram bons aqueles velhos tempos, se hoje em dia ainda assim é tão bom.

Um dia sem galhos pra quebrar, sem horário pra chegar, um dia vadio na Côte D’Azur.

Saint Tropez um dia já foi. Mas ainda é, diferente. Menos espontânea, mais mercante, ainda assim, simples e bela como um barco, uma rede, uma gaivota navegando no ar.

Uma tarde de quinta, em vez de trabalho, rotina e pentelhação, vadiagem na rua do Clocher, contando tons de ocre e espiando pelas frestas.

Um dia admirando portas e janelas, como se pra isso fosse preciso atravessar o mar, não bastando só pensar.

Um dia pra olhar a vista, de quem já foi, de quem está, de quem vai e que gostaria de ir e ali ficar.

Ficar ali, morto e enterrado, pra sempre, sem reclamar das sombras…

… da memória perdida, do tempo mal gasto, do vermes da terra.

Se não é bom pra morrer, quinta-feira é sempre um bom dia pra olhar o mar.

Sondar o movimento dos barcos, o por-do-sol.

E, nos últimos raios do dia, pensar que um dia, talvez numa quinta-feira igualmente vazia, o melhor a fazer tenha sido olhar os homens jogando bola numa praça de terra, sem noção da fantasia.

Escrito por Beto