Viagem ao reino do idiomaterno

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Aproveitamos o frio de São Paulo na noite daquela quinta do encontro com os TAs para matar a saudade de um edredom, roupa de cama utilizada em Santos para estufar armários e guarda-roupas. O edredom está para o santista como o berimbau-souvenir para o turista que visita a Bahia. Enforcamos a sexta, para ir ao Museu da Língua Portuguesa, na Estação da Luz, o que justifica as palavras de Fernando Pessoa aí em cima.

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Foi desta estação que parti para a minha primeira viagem ao exterior, Bolívia e Peru. Pára tudo. Depois do alerta do Corvo Bêbado lá nos comentários, tenho que começar diferente. Então fica assim. Foi nesta estação que comprei os bilhetes de trem para a minha primeira viagem ao exterior, Bolívia e Peru. Depois de conhecer tantos terminais na Europa, a gente se espanta como o gigantismo de São Paulo não se refletiu no transporte ferroviário. Apesar de bela, a Luz parece estação de interior se comparada com as européias.

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O brasão da São Paulo Railway, na estrutura de aço da cobertura, faz lembrar que a estrada de ferro foi construída como parte do projeto de modernização e expansão do Porto de Santos, no início do Século XX, numa das mais arrojadas obras de engenharia executadas no Brasil até então.

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O que importa pra nós, viajantes, é que a estação foi lindamente restaurada, continua a funcionar como terminal ferroviário e abriga um dos museus mais bacanas do Brasil.

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As primeiras viagens da minha vida foram pelas mãos de Monteiro Lobato. Fui ao interior do mato, à Grécia, à Lua, ao fim do mundo, hipnotizado pela boneca Emília, muito mais do que pelo aventureiro Pedrinho. Reencontrei a sacana, e as suas geniais asneiras, em meio a poetas e escritores, cujas palavras brotam do chão na Praça da Língua, uma das principais áreas do museu. A projeção de um filme de Antônio Risério (que cunhou a palavra “idiomaterno” do título deste post) e Tadeu Jungle no Auditório e as leituras, canções e projeções na tal praça me deixaram, algumas vezes, perto de abrir o berreiro. Me contive, pois sempre preocupado com a construção da minha imagem pública eu não queria parecer um macho sensível que chora. Pra mim, basta ser macho, o que já é uma cruz.

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Dá vontade de botar todas as poesias, frases e textos geniais em que você tropeça durante a visita. Mas não dá pra aumentar a minha cabeça, como sugere Guimarães Rosa. Já tenho problemas pra encontrar chapéus na medida. Só me sinto obrigado a mencionar o verso de Drummond que abre a apresentação da Praça da Língua, porque dela roubei parte para compor o título do post: “Penetra surdamente no reino das palavras”.

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Acho um pé tentar descrever algo que tem que ser visto, sentido, digerido. Pode ficar parecendo aqueles experts em vinho, que dizem sentir gosto de melancias verdes e aroma de carpaccio de vitela para explicar um vinho de uvas gewürztraminer. Uva que eu nem sei pronunciar, pra falar francamente. Isto que você vê acima e abaixo é a Grande Galeria.

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Então, poderia dizer que se trata de uma experiência intelecto-aúdio-vídeo-sensorial. É só sentar e ficar ligadão nas imagens e narrações.

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Nem precisa entender tudo. Basta relaxar e deixar a cabeça viajar, que é a melhor coisa que existe.

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De vez em quando toca aquela campainha que toda gente tem, entre o cérebro e o coração lusitano.

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Estes totens foram batizados de Palavras Cruzadas, porque tratam do cruzamento das línguas que formam a Língua Portuguesa falada e escrita no Brasil.

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Este aqui mostra o papel da cultura Iorubá, trazida pelos africanos.

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painelzão aí de cima mostra a evolução da língua através do tempo…

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… e mais uma vez aquela campainha toca, desta vez no ventrículo oriental africano.

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O Brasil é o único país do mundo em que a avacalhação é filosofia. E esta exposição sobre a nossa língua não poderia terminar sem uma palavra do nosso Mestre Yoda da comunicação, o velho guerreiro seu Chacrinha. Velho palhaço!

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Atravessamos a rua e fomos ao Jardim da Luz, sobre o qual eu não sabia xongas. E de lá a gente tem esta vista da Estação.

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Foi uma surpresa encontrar até carneirinhos pastando em plena megalópole. Que só não são devorados pelos freqüentadores porque têm as carnes duras como aço. Não é fácil ser cordeiro em São Paulo, tem que ter casca grossa.

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O coreto, ou seria pagode?, dá uma idéia de quando São Paulo era a maior cidade interiorana do Brasil. Quando é que vai voltar a ser?

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Imaginem este parque na zona mais central de qualquer capital que você conheça. Seria pole position de visitação. Infelizmente, ele está oculto no meio de uma das regiões mais socialmente degradadas da cidade. E não é qualquer cidade.

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Não resisti a repetir uma foto da Estação, vista do Jardim da Luz, porque dá uma idéia do que São Paulo ainda pode vir a ser.

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Ao lado está a Pinacoteca do Estado, cujo prédio foi restaurado pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha. Aproveitamos para ir ver a exposição de quadros do Palácio de Versalhes. Entendi porque quando vamos a Versalhes não ficamos olhando pras paredes. Ô gente feia, aqueles Bourbons.

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Já no fim da tarde, tiramos o time e voltamos a atravessar a Estação. Fomos abordados por uma guia de turismo, que nos alertou pra que não mosqueássemos com as câmeras, pois ela poderia ser abduzida num piscar de olho da Emília. Foi o tempo de um último clique, justamente a Luz no contraluz.

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Sobre Beto Paschoalini

É o que dizem por aí.
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23 respostas para Viagem ao reino do idiomaterno

  1. oanodalargartixa disse:

    Engraçado, na minha cabeça abduzida, tinha idéia de que a viagem Bolívia-Peru havia começado com uma ida de ônibus até Bauru, onde pegamos um trem que nos levou a Corumbá. A Luz da Estação se apagou em minha mente desviajada! De qualquer forma, bela viagem pela estação, pelo idiomaterno e, principalmente, pela Luz!

  2. Beto disse:

    Tens razão, ó Corvo Bêbado. Fui na Luz só pra comprar as passagens. Trem mesmo pegamos em Bauru. Ficaí a correção, graças à lucidez e transparência mental do Corvo.
    Abraços

  3. oanodalargartixa disse:

    Como vês, Eles, quando me abduziram, deixaram ainda alguns fragmentos intactos…

  4. Carla2 disse:

    Beto que lindo!! Como sempre seu texto tem o equilíbrio perfeito entre a graça e a poesia. Também quase chorei ao ler a “conversa” da Emilía com o Visconde de Sabugosa aí em cima – e veio uma torrente de lembranças, das mesmas viagens que vc fez, à Lua, à Grécia, ao reino das Ágias Claras…

    Não vou nem contar que, apesar de morar em SP, ainda não achei tempo de ir ao Museu… vergonha total!!! Já tinham me dito que era o máximo, mas agora com seu texto e fotos, vou no próximo findi que eu ficar aqui em Sampa!

    Beijos,

  5. Carla2 disse:

    Ah, e sem comentar sobre SP – a saudade que temos de uma cidade que nem sei se existiu, pois não vivi essa época, mas é uma saudade do que poderia ter sido e não foi… e a esperança de que ainda possa ser…

  6. Beto,

    Lindo passeio. Ainda que eu tenha que ir até lá para, como vc diz, sentir. ver e digerir, achei muito legal passear com o seu relato. Foi o primeiro texto que me despertou a vontade de conhecer o tão famoso mais novo museu de SP.
    Sobre a Pinacoteca, que eu adoro, vale dizer que aos sábados é grátis!

    Vou colocar as fotos do encontro agora no blog. Um abraço,

  7. Beto disse:

    Carla e Jorge, vale totalmente a viagem ao Museu. Vocês vão adorar…

  8. Carla disse:

    Beto, que bacana esse post sobre o museu! Ainda não estive em Sampa depois da inauguração – mas vontade não falta! As fotos também estão lindas!

  9. Pingback: Na carona dos amigos « Viaje na Viagem

  10. Mari Campos disse:

    Lindo o post, adorei. As fotos então… Também já viajei muito via Monteiro Lobato e até hoje estou devendo minha visita ao museu…

  11. É uma verginha que eu ainda não conheça esse lugar! BELÍSSIMA matéria.

  12. Beto disse:

    Verginha, vergonha, tanto faz, Arnaldo. O importante é que você passou por aqui. A você e à Mari, obrigado pela visita, pelos comentários e abraços.

  13. Emília disse:

    Puxa vida, Beto, que fotos! Que descrição! Adorei…
    Esse é um dos cantos de São Paulo mais legais, apesar da degradação que o cerca…e nesse circuito central o que me falta é visitar o Museu da Língua Portuguesa, muito elogiado.
    Quanto ao Monteiro Lobato…eu ainda tenho a coleção completa, já desgastada de tanto ler e reler: os meus favoritos são os sobre a Grécia Antiga, o Minotauro e os 12 trabalhos de Hércules. Mas esclareço que meu nome não foi inpirado na famosa boneca de pano 😀
    Bela viagem…

  14. Eliane Inácio disse:

    Fantástico, que viagem .
    Como Turismóloga embarquei junto, trabalho nota dez!

  15. Luisa Alegria disse:

    Beto, estou amando pegar carona nestas viagens… As fotos estão lindas e os textos tem para mim uma intimidade gostosa, como se eu estivesse contigo, viajando junto…
    Grande beijo, Ziza.

  16. Luisa Alegria disse:

    Só mais uma coisinha, por acaso aquela figura na sétima foto, de frente para a Tete é o Carloto Portugal ???

  17. Beto disse:

    Eliane, nota dez é você. Volte sempre e beijos.
    Luisa Alegria, a foto é no Museu da Língua Portuguesa, o Carloto Portugal tá em outra. Tá em Odeceixe. Beijos.

  18. Isabel O., Portugal disse:

    Olá Beto, a propósito de Odeceixe, deixei-lhe duas notinhas nos seus dois textos sobre Portugal.

    Li com muito interesse o seu texto sobre o Museu da Língua Portuguesa. Adorava visitá-lo.
    Estive em S. Paulo em Dezembro de 2004, visitando a cidade com maior detalhe com uma guia de origem portuguesa, num dia da semana do Natal, chovendo horrorosamente (está a ver o estilo? Quase nem saímos do carro).
    A certa altura parámos junto à estação, que ainda não era Museu. O meu marido saiu para filmar quer o edifício, quer o jardim que aparece nas fotografias. A guia ia tendo uma coisinha má porque viu alguém que se aproximava e ela já imaginava turista roubado e problemas. Não aconteceu nada, mas não deixou de ser algo marcante nessa zona do Museu, a senhora cheia de stress e nós por contacto a ficar um pouco tensos.
    A nossa ministra da Cultura também já anda cheia de ideias a querer copiar esse museu para um espaço que agora está fechado, junto ao Padrão dos Descobrimentos e à Torre de Belém (imagino que conheça o local). Relacionando o tema com os Descobrimentos. Enfim… entre projectos e concretizações. Para estádios de futebol do Europeu (ou Mundial, n percebo nada de futebol)o dinheiro lá apareceu.
    Parabéns por esse espaço. Desfrutem-no bem.
    Beijinhos, Isabel

  19. Beto disse:

    Isabel, espero que tenhas outra oportunidade para conhecer o Museu. Vale muito a pena. Irás adorar. Beijos

  20. Carmen disse:

    Beto, me ha gustado mucho la descripción tan poética de esa zona de Sao Paulo (que yo no conozco, pero que me gustaría conocer).

    Muchas ciudades maravillosas se degradan por razones diversas, pero es una responsabilidad de la ciudadanía intentar que eso no ocurra y revindicar los espacios públicos.

    Beto, cierto los Borbones son feíssimos, pero hicieron posible que Goya pintara esos cuadros tan magníficos sobre ellos. Muchas otras dinastías europeas también son horrorosas, seguramente la corrupción de alma afea al cuerpo.

    Uno siempre puede intentar mejorar su presente para hacer un mejor futuro.

  21. Carmen disse:

    Beto, disculpa me comí la “l”…la corrupción del alma afea al cuerpo.

  22. Beto disse:

    Ô Carmen, Goya é o máximo.

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