Uma viagem muda tudo, mesmo que não aconteça

O romance On The Road, de Jack Kerouac, e o filme Easy Rider, de Peter Fonda e Dennis Hooper, fizeram várias gerações de jovens mitificar a idéia de viajar. Essas obras criaram subgêneros de literatura e de cinema e geraram uma demanda de consumo que cresceu, amadureceu e sofisticou-se, ajudando a acelerar a “industrialização” do turismo. Eu e milhões embarcaram na idéia, porque é uma das mais próximas que conheço da idéia de liberdade física e de busca de autoconhecimento.

Passei anos da minha adolescência imaginando, eu e o meu amigo Ratinho, ir de motocicleta com aquele carrinho do lado até os Estados Unidos. Fui com ele de Santos a Peruíbe, pegando carona de caminhão, o mais assemelhado a uma viagem que conseguimos fazer juntos. Não porque iríamos viajar pouco. Não. Até que fomos fundo nas nossas tentativas.

Ele foi mais precoce e, aos 20 anos, fez um curso da marinha mercante e embarcou num navio. 

Não tenho certeza, acho que ficou uns 10 anos fazendo Brasil-Europa e deu um 360 planetário interrompido em algum porto da antiga União Soviética, por causa de uma contusão de joelho, numa partida de futebol.

Eu sempre invejei a coragem dele. Mas, ele mesmo, não tinha qualquer inveja da própria ousadia. Já na primeira ou segunda viagem percebeu que havia entrado numa tremenda gelada. Foi um período em que a lata velha na qual estava embarcado foi afretada por uma companhia européia. Ele ficou cerca de 8 meses fazendo linhas entre portos da Inglaterra, França, Bélgica, Holanda e Alemanha.

easyrider.gif

Reclamava de passar dias sob tempestade, em que dormia com os braços e pernas segurando as paredes da cabine, pra não cair do beliche. Falava de terremotos a cada minuto, com o navio jogando pra fora a água das ondas gigantes em que havia emborcado. Ou da reza braba que todos faziam pros motores não pifarem, porque neste caso, como diziam os alemães dos filmes americanos, kaput!

O que salvava era o bom ambiente entre os embarcados, cujo estresse era abatido a scotch e mulheres de borracha. Da qual, ele assegurava, um tinha ciúme doentio, ferida aberta em que todos punham os dedos sujos de graxa pra ver o quanto ardia. Eram essas provocações que, vez ou outra, levavam alguém a puxar uma faca e tentar um homicídio. Como nas melhores famílias.

Sempre que chegava de uma longa viagem, o meu amigo reservava uma novidade pra me desafiar. Contava histórias soturnas de porres e bodes nas bocas do lixo de Rotterdam, de brigas por mulher nos pubs de Hamburgo, de peixes voadores que voavam, voavam, mas sempre voltavam para as águas do Atlântico.

Foi num pequeno porto no nordeste brasileiro, Cabedelo, na Paraíba, que ele tomou a decisão de trocar de sonho. Abriu mão de um salário em dólares, de uma carreira de oficial da marinha mercante, pela hipótese imprecisa, mas que se mostrou real anos depois em Natal, de uma vida em família, mulher, filhos, casa e tal.

Todos nós somos como os peixes-voadores, como ele bem notou naquelas tardes em que ia fumar sozinho no convés. Voamos, voamos, mas jamais conseguimos sair das águas do nosso atlântico. E, se não percebemos isto a tempo, corremos o risco de terminar como os personagens de Easy Rider. Isso não aconteceu com ele, nem comigo. Depois de termos feito opções tão diferentes ao longo da vida, continuamos a achar que teria sido muito divertido se aquela viagem de moto tivesse acontecido. Uma viagem muda tudo.

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Sobre Beto Paschoalini

É o que dizem por aí.
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13 respostas para Uma viagem muda tudo, mesmo que não aconteça

  1. Na minha experiência, nem sempre as viagens mudam “tudo”, mas, com certeza, as viagens sempre mudam muitas coisas. Mesmo quando as viagens nem acontecem…

  2. thamy disse:

    Eu acredito que uma viagem muda tudo.
    E adoro as mudanças que qq viagem possa causar em mim, na minha vida, no meu coração.
    Simplesmente porque não há melhor que uma viagem.

  3. Carmen disse:

    Beto, me ha encantado su texto tan literario.

    Esa generación -Beat Generation- tiene mucho que contar, pero algunos de los amigos que empezaron un viaje atrevido, arriesgado, no están muy bien para poder contarlo. A veces, cierto riesgo te conduce a algún tipo de enajenación.

    Beijos e ate logo.

  4. Carmen disse:

    Ah!. Por cierto, você seguro que é um bom amigo.

  5. Arthur disse:

    Muito bom o texto, Beto. Mas nuca é tarde para tentar essa viagem de moto…

  6. Carla disse:

    Beto, fantástico seu texto… estou me preparando para “voar” por um ano e ler seu texto me emocionou d+ !!!

    E é a certeza de que o porto de partida está pronto para nosso retorno que me deixa tranquila para ir!!!

    Parabéns novamente!

  7. Paulinha disse:

    Oi Beto… é a filha do Ratinho… 😀 Adorei o texto, principalmente a foto do meu pai (gaaattãooooo) rs. Ouço desde pequena essas aventuras, narradas pelo próprio, e seu texto só fez reforçar ainda mais a admiração que sinto por esse velho…rs por sua coragem e determinação em perseguir um sonho: conhecer o mundo! bjss

  8. Beto disse:

    Gatão? Menina, teu pai precisa te levar a um oftalmo. Teu caso é grave 😆
    Beijinhos

  9. Pingback: Ossos do ofício « O meu lugar

  10. Ratinho disse:

    Revivendo os pensamentos e aventuras, bem aventuras e pensamentos, como fica gravado, sito; (nunca sei se é com c ou s) uma passagem em que fui visitar o escritor no “Colégio*” vindo em uma das viajens, já foi dificil achar o dito no Colégio*, entrei na classe dele e rapidamente meu amigo quando me viu levantou-se e veio ao meu encontro, correndo, colocou a mão de baixo do meu braço, na altura do ombro, levantou o lado direito, demos um giro de 360°, a porta de entrada que no momento também foi de saída, e fomos de escada a baixo, visualizei do outro lado da rua um bar, e o meu pensamento se tornou realidade, me jogou lá dentro e disse: espera ai, esperei, e dei uma olhada, e o melhor, na prateleira do bar vi “Recordações de 1940”, fiquei.
    Que lembrança.
    Pessoal o escritor tem outras história e olha é estoria mesmo.

    * Colégio Santista – Faculdade

  11. Beto disse:

    É, meu chapa, acho que foi quando tu voltou dessa enrascada aí da foto, né não? Na época eu tava no seminário…

  12. Renato Alonso disse:

    Será que o Rato lembra dessa? Uma caranguejada no fundo do quintal, em casa, em Santos? Compartilhei de algumas dessas estórias, regada a muita cerveja.
    Abração Rato.
    Até, Beto.

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