Gastando e sujando a sola em Buenos Aires

Não se conhece um lugar em apenas 72 horas. A gente vê algumas coisas. Aparências. A primeira providência para amenizar o tempo exíguo é planejar os passeios de uma maneira lógica, o mais retilínea possível. Por isso, ao chegarmos no comecinho da tarde a Buenos Aires, fomos diretamente ao San Juanino, na Recoleta, comer umas empanadas.

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Antes de começar a viagem, ainda em Santos, frente às minhas anotações prévias, pensei em fazer um pequeno post sobre como eu antevia o meu retorno. É que eu só havia anotado informações sobre bares, cafés e restaurantes. Lembrei então de uma seqüência escatológica  (se você é enjoado(a), nem arrisque ver) e genial do igualmente genial grupo inglês Monty Python, no filme Meaning of Life. Com pena de quem cai nesta armadilha de blog, acabei desistindo do tal post, mas como não encontrei imagens mais adequadas pra expressar esta fome antiga que eu tenho, resolvi inseri-la agora, assumindo o risco de perder futuros amigos de mesa. 

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E lá estávamos nós, com uma hora de Argentina, diante de empanadas de carne com pimenta e sem pimenta, queijo com cebojas, queijo com tomate, verdura e pojo. Peço licença para uma pausa a fim de confessar que implico com a pronúncia argentina. Falar mijones, pojo, ceboja e caje é um horror. E o pior é que não entendem quando a gente fala milhones, polho, cebolha e calhe. Em vista do inevitável, abstraímos e abolimos o duplo ele.

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Extremamente bem alimentados, fomos rolando pela avenida Alvear até a praça do mesmo nome, no coração da Recoleta. Quicamos nessa árvore aí, o ombu, com umas raízes lindas e uma copa magnífica. A Wikipedia ensina que é uma espécie típica do pampa e símbolo da cultura gaúcha.

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A Recoleta é um bairro muito chique, cujo coração pulsa (???) num cemitério. Acho que é preconceito, mas ainda não consegui entrar num cemitério com o propósito de me divertir. Por isso, admirei o muro, dei uma olhada no portão e optei por fotografar a igrejinha do lado, a Basílica Nossa Senhora Del Pilar, que fica junto ao Centro Cultural Recoleta.

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Depois de conferir se tudo ali em volta do cemitério existia mesmo, resolvemos descer (ou subir?) a Alvear, em direção ao bairro do Retiro. Passamos em frente aos lindos edifícios da avenida, incluindo o daí debaixo, que se trata da Embaixada do Brasil (como vivem bem os diplomatas brasileiros, né?). 

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Em nossa caminhada, desviamos de alguns dejetos caninos, mas não obtivemos sucesso absoluto. Eu, por exemplo, alertado pela minha já vitimada esposa, saltei sobre um e espatifei-me noutro, numa só coreografia.

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Dali, até a praça General San Martin, já no Centro, chafurdamos os pés em cada poça d’água do caminho, esfregamos os ditos cujos em todos os gramadinhos, canteiros de pedras e chãos de terra que encontramos, mas só conseguimos algum resultado quando nos curvamos discretamente à necessidade de contornar cada sulco da sola dos tênis com um graveto cirúrgico.

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Recapitulando: o vôo São Paulo-Buenos Aires saiu às 7 horas da madrugada de quinta, dia 30 de agosto, portanto tivemos que acordar às 3 (em Santos), pra estar às 5 em Cumbica; chegamos ao hotel por volta do meio dia e meia e à 1h30 já estávamos na rua. Quando chegamos à praça General San Martin, caminhando desde a Recoleta, já eram 5h30. Eu diria que estávamos praticamente em petição de miséria física.Pois fomos quase mancando até a Florida, onde procuramos uma boina para aquecer os meus cabelos, já que fazia um frio danado, entre 7 e 10 graus naquele dia apesar do sol. Desistimos às primeiras provas, pois os espelhos das lojas estavam com defeito. Entramos nas Galerias Pacífico, saímos imediatamente e pegamos um táxi. Via Córdoba, até a Ahr(solta o ar desde a garganta)cuénaga.

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Como dizem, lavou fica novo. Tomamos uma ducha, cochilamos um pouco e, às 9h30, estávamos na fila do Sottovoce Libertador, na Recoleta, bebericando um espumante enquanto esperávamos mesa em meio a uma legião de louras de meia idade. Por falar nisso, a Argentina é praticamente um país nórdico. A partir dos 40 anos, todas as mulheres ficam louras atrás do rímel. E decotadas.

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É realmente uma maravilha comer em Buenos Aires. Há ótimos restaurantes e, ao menos com o câmbio atual, os preços não te deixam com dor de estômago ou sentimento de culpa. Comemos entrada, prato principal, vinho, água e café (a sobremesa não cabia). 135 pesos, ou menos de 9o reais para duas pessoas. Tudo bem, de vez em quando tenho que ser honesto, então confesso que esqueceram de cobrar um prato. E nós também tivemos um lapso de memória e só fomos perceber quando já não era mais possível corrigir o erro. Uma maçada.

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Apesar de moralmente destruídos, caminhamos dez quadras de uma sutil ladeira até a cama king do Art Hotel. Desfalecemos.

ATENÇÃO-EM TEMPO: A Thamy tem razão. Às vezes esqueço que sou duas pessoas. Algumas das fotos foram mesmo feitas pelo meu outro eu, chamado Teté. Como ele, o outro eu, também não lembra que é duas pessoas, ele, o eu Teté, não reclama. Mas fica o registro. Eu, Teté, fiz algumas das fotos deste e de outros posts do blog.

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Sobre Beto Paschoalini

É o que dizem por aí.
Esse post foi publicado em Argentina, Buenos Aires, Estômago e papilas (nessa ordem). Bookmark o link permanente.

12 respostas para Gastando e sujando a sola em Buenos Aires

  1. Suas fotos estão cada dia mais “profissonais”. Parabéns! Mudando de assunto, quando você fala da pronúncia dos nossos hermanos portenhos, lembrei-me de que muito pior era na Bolívia. Os bolivianos não entendiam o que falávamos, e nós não entendíamos o que eles falavam, tanto que o gerente do hotel onde ficamos achava que éramos franceses. Então, em Cuzco, no Peru, encontramos uma pensão cujo dono era argentino. Incrível, mas depois de quase 15 dias de “boliviano”, o argentino parecia estar falando quase português. Pelo menos entendíamos o que ele dizia e vice-versa. Ah, e ele sabia que éramos brasileiros, logo que chegamos.

  2. Diogo disse:

    Mas vem cá hein ô, a lagartixa disse tudo aí: as tuas fotos tão profissa mesmo!

    E foram a algum dos restôs que eu te indiquei, ou ignoraram as dicas mesmo?

    Tá muito afú tudo, Betão 😀

  3. Beto disse:

    Lagartixa, a tua memória me deixa estupefato.
    Diogo, não ignorei as dicas, não, mas a que escolhi não deu pra reservar. Fica pra próxima.

  4. Mô Gribel disse:

    Oba! Vou correndo ler o outro que ainda não li!

  5. Thamy disse:

    Pois é adorei as fotos também. Mas temos que levar em conta que a Teté também tirou algumas. Ou seja, no total da trip tudo é visto a 4 olhos e 2 máquinas, assim as possibilidades aumentam. Mas, mesmo assim e NUNCA desmerecendo o grande Betinho…sim, o cara tem jeito pra coisa. E a mulher dele também.
    Bjs Thamy – estupefacta ainda com a foto do táxi em andamento….

  6. Beto disse:

    ATENÇÃO: A Thamy tem razão. Às vezes esqueço que sou duas pessoas. Algumas das fotos foram mesmo feitas pelo meu outro eu, chamado Teté. Como ele, o outro eu, também não lembra que é duas pessoas, ele, o eu Teté, não reclama. Mas fica o registro. Eu, Teté, fiz algumas das fotos deste e de outros posts do blog.

  7. Carmen disse:

    Qué árbol mais lindo o ombu!!!

  8. Lena disse:

    Beto,
    cohece aquele dito popular: “Mulheres não envelhecem; ficam loiras!”? Pois é. Vale no mundo todo 🙂
    Adorei o texto!

    Você comentou no VnV que foi de British. O preço era equivalente ao das outras? Eu estou com reservas na Aerolineas Aregentinas, porque o roteiro é meio complicado. Primeiro vôo Sao Paulo/Mendoza. Segundo vôo bariloche/Buenos Aires e terceiro vôo BsAs/sao Paulo.

  9. Beto disse:

    Lena, os preços da British e da Lufthansa são equivalentes aos das sul-americanas. Elas são uma opção pra fugir dos micos que se transformaram Varig, Tam e Gol. Pra ir direto a Mendoza elas não devem servir. Por falar nisso, me interessa muito essa viagem a Mendoza. Quando você voltar, dê a ficha. Bjs.

  10. Emília disse:

    ‘…os espelhos das lojas estavam com defeito.’
    Fantástico! 😆

  11. Pingback: Día uno: city tour « A Turista Acidental

  12. Leise Harumi Baía Ashiuchi disse:

    Excelente post! Estou viajando dia 25 de dezembro, e com certeza suas infos todas me serão muito úteis!!! Obrigada!!!

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