Amor à cachorrada une parisienses e portenhos

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Paris foi uma inspiração para Buenos Aires. Isso é evidente quando a gente vê os edifícios, as avenidas, as praças e parques urbanos. Como os parisienses, os portenhos também gostam de passar horas num café, comer um croissant e de bons restaurantes. Até os quebra-quebras das manifestações, que vez por outra irrompem na cidade, se assemelham aos de Paris. Outra grande identificação é o amor à cachorrada. Já vi cachorro comendo à mesa de restaurante na Rive Gauche, com um guardanapo amarrado no pescoço. E em Buenos Aires, se eles não se sentam à mesa, ocupam lugar privilegiado nas praças públicas.

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Buenos Aires é cheio de passeadores de cachorros. Levam matilhas de 10, 15 para as praças, quase todas com recintos próprios para soltar os bichos. Esses espaços chegam a receber 50, 60 animais ou mais. Escuta-se o alarido de longe. E entende-se o campo minado nas calçadas, já que quem anda com 10 cães, a maioria de raças bem desenvolvidas, não vai andar com saquinho de lixo e pazinha pra recolher o material.

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A cena quase dantesca abaixo deve acontecer todos os dias na praça Rodríguez Peña, junto à avenida Callao, por onde passamos em nosso caminho entre o hotel e a Casa Rosada, uma das nossas principais tarefas no segundo dia de Buenos Aires.

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A interação, digamos assim, mais estreita entre os cães acontecia ao mesmo tempo em que um grupo de senhoras ninjas fazia o seu treinamento matinal, numa prática que a minha ignorância sobre artes marciais não permitiu identificar.

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Não acredito que fosse o ensaio de um ataque ao Congresso Nacional, esse belo edifício aí debaixo. No dia anterior, na quinta, quando passamos por ali havia uma manifestação de, suponho, trabalhadores, para absoluta irritação do motorista do nosso táxi, que nos garantia que era ele quem pagava (com impostos, presumo) por aquela desordem, feita, segundo ele, por uns chupins dos cofres públicos.

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Houve um tempo em que eu achava que compreendia a política. Não digo a da Argentina, pois não me atreveria. Hoje, apesar de não me abster completamente, pois é impossível, se estiver em trânsito acabo olhando para os detalhes arquitetônicos, evitando quebrar a cabeça para tentar adivinhar onde estão o certo e o errado atrás das portas dos gabinetes e das motivações individuais.

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Já que o assunto cachorrada não sai mesmo da pauta, prefiro me deter nos seus aspectos mais prosaicos e literais. Olha lá o cachorreiro em plena atividade na boca da avenida de Mayo.

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A praça Lorea pega fogo com a chegada dos reforços. Eles latem, pulam, correm e babam. Fiquei imaginando como esses bichos são devolvidos aos donos. Provavelmente imundos e, possivelmente, grávidos.

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Enfim, o Café Tortoni, onde quadrúpedes não entram. Bípedes convictos, entramos, tomamos um café, comemos um churro, conferimos a tradição e seguimos para continuar cumprindo o nosso dever turístico.

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Na Plaza de Mayo não estavam as madres, que agora comparecem segundo soube apenas às quintas-feiras, mas era hora do almoço e o povo aproveitava o intervalo pra tomar um sol. A praça é monumental mas a Casa Rosada é um palácio um pouco feioso, tingido com uma cor medonha e cercada por barras de ferro.

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Não sei se dá pra ver na foto abaixo, mas a entrada do palácio tava imunda, com sacos plásticos espalhados pelo chão e uma imagem de abandono inacreditável, em se tratando da sede do poder federal e um dos mais visados pontos turísticos da cidade. Buenos Aires nem é especialmente suja, como seria de acreditar tomando como exemplo o Palácio do Governo.

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Dali fomos de táxi à praça Dorrego, em San Telmo, onde, como no Brasil, se pratica o popular culto às faixas de rua, uma implicância minha, e às cadeiras e mesas de plástico, objeto de uma guerra particular do Ricardo Freire. É nessa praça que acontece a feira dominical de antigüidades de San Telmo. Nos outros dias, como na sexta em que lá estivemos, tem uma feira de artesanato pra não deixar os turistas totalmente na mão. 

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Na rua Defensa se concentra o comércio de antigüidades da região. Lojas caras, objetos pra tudo que é gosto. A escultura aí abaixo me fez lembrar um casal muito querido, que também adora viajar.

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Alguns já sabem que sou ligado em feiras e mercados. Aí, sem mais, aparece no nosso caminho uma porta estreita com essa placa.

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Exatamente o que queríamos. Bugigangas, tranqueiras, quinquilharias, coisas velhas e aparentemente inúteis.

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Fiquei ligado na coleção de velhos telefones de parede.

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E, incrível, o mercado ainda funciona para a venda de alimentos.

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Pelo forte odor de sangue, o açougue ainda vende carne. Ou melhor, carniça. Tomara que não seja para o Sanjuanino rechear as suas empanadas.

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Paramos em frente a esta banca. Vidrados. Parecia que haviam botado alguma substância ilícita em nosso café no Tortoni.

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Não temos no Brasil um conjunto de ícones como eles têm na Argentina. Peron, Evita, Gardel, Fangio e, falha do lojista, Maradona são onipresentes onde quer que se vá. Se a lojinha fosse uma instalação de arte contemporânea, o penico seria o elemento a simbolizar a realidade.

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Eu ainda buscava um abrigo seguro para os meus cabelos. Por isso o súbito interesse no espelho. A minha mulher quis me presentear com o inusitado modelo de pirata viking. Declinei e achei melhor desistir definitivamente de usar chapéu.

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Apesar de ainda não termos almoçado e do adiantado da hora, a fome não havia nos cegado completamente e não caímos na tentação de arriscar um petisco na concorrida praça de alimentação do mercado.

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Logo ali ao lado, o casaquinho de pele me fez ter um insight. Ainda posso obter alguma reparação para os anos de despesas acarretadas pelo menor abandonado que adotamos, há longos 10 anos, num vacilo de compaixão.

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Foi então que a minha mulher, diante de pensamentos tão maquiavélicos, decidiu dar por encerrada a visita ao mercado, mostrando que a porta de saída era também muito interessante. Lá fomos nós para Puerto Madero.

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Sobre Beto Paschoalini

É o que dizem por aí.
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33 respostas para Amor à cachorrada une parisienses e portenhos

  1. Taryn disse:

    Nossa Betinho Muitoooo Bom!!! E o Piti é realmente igualzinho a esse casaquinho ai… Vai dizer que não sentiu saudades das suas roupas c/ pelos dourados?! Hein?! Rs… Ta com bastante tempo pra ficar postando né?! Agora que não precisa dividir o computador com a sua enteada “mais” querida aqui… Beijos.

  2. Beto disse:

    Beijos, beijos, beijos…

  3. Mô Gribel disse:

    Não acredito!! rs
    Sabe esse lugar no mercado? Eu almocei nele! 😀
    Vou surrupiar a sua foto para por no meu álbum.
    Ah, e também adorei as bugigangas daí!
    O Sr que atendia no boteco era um fofo, tinha medialunas deliciosas e comi também um pão de miga que fiz ele tirar o presunto.

  4. Chris Pessoa disse:

    Eu não sabia que aqui tinha estas praças com áreas especiais pros cachorros… :-)))
    E eu tb não entendo como é que esses passeadores de cachorros fazem pra não trocar os bichinhos na rua. Já pensou, depois de soltá-los no meio de mais um montão de cachorros em uma praça dessas, como saber quais são os seus?
    A sujeira de cachorro nas ruas tb me irrita bastante… a gente tem que andar olhando pro chão, enquanto poderia estar apreciando a paisagem.
    Puxa, eu adorei o chapéu de pirata viking, não sei porque vc não quis um. 😛
    Vcs fizeram bem em ir embora, Puerto Madero é bem mais interessante que San Telmo…

  5. Majô disse:

    Beto, também acho Buenos Aires com ares europeus. Agora, fala sério passear com 15 cachorros, só argentino mexxmo 😉 O post tá ótimo, adoro feiras também e os relógios de parede também sou vidrada. Eu posso passa a tarde olhando essas quinquilharias rs O post tá muuuuito legal !!!! 😆 😆
    beijins

  6. Beto disse:

    , aquele mercado dá pra passar a tarde inteira e sair com a mala cheia de tranqueiras, né? Ideal pra garimpar fantasias. Quer dizer, pra quem gosta de festa à fantasia, que tenho certeza não é o nosso caso.
    Chris, gostei muito de San Telmo, apesar do pouquíssimo tempo em que estive por ali. Mas também gostei de Puerto Madero, idem em relação ao tempo.
    Majô, bota os óculos menina, não eram relógios de parede, mas telefones. Esse Braca tá te fazendo mal…
    Beijos a todas.

  7. Carla disse:

    😆 Verdade que a cor da Casa Rosada é feia mesmo… Mas eu adoro a história por trás do mau gosto: consta que um presidente (não lembro se foi Sarmiento ou Belgrano – ou talvez não tenha sido nenhum dos dois…), para conseguir o apoio dos dois maiores partidos políticos do país, misturou as latas de tinta branca, que simbolizava um dos partidos, e vermelha, que simbolizava o outro. Com a mistura rosada pintou a Casa de Gobierno, simbolizando que o governo não seria de um partido apenas, mas dos dois.

  8. Diogo disse:

    Que cidade!!!

    Sorry anunciar, pero me voy para bue en 19/09, hasta 23/09. Te gustó? 😎

  9. Uma coisa que eu nunca entendi (e aceitei) é dono de cachorro pagando pra gente passear com o cachorro dele ou (o que é pior ainda) mandando a “doméstica” levar o Totó pra dar uma voltinha. Acho que cachorro é que nem filho: ou assume ou não tem. Nada contra os passeadores de cachorros, que descolam um troco e minimizam as estatísticas de desemprego. Ah, e nada menos ainda contra a cachorrada de Buenos Aires. Todos parecem muito simpáticos, pelo menos nas fotos do Beto.

  10. Sylvia disse:

    Esse mercado é melhor do que a praça Dorrego , masi divertido, com menos
    gente e cheeio de bugigangas – tralhas quase 100% inúteis que a gente adora! 🙂

  11. Beto disse:

    Carla, cê tem razão. A história justifica plenamente a cor pavorosa. O olhar que a gente tem das coisas sempre sai da superfície à luz da história, né? Obrigado pelo adendo.
    Diogo, tu não pára garoto! Boa viagem.
    Lagartixa, acho que os totós adoram passear com os cachorreiros. Eles não tão nem aí pro capitalismo.
    Sylvia, não visitei a feira de domingo, mas adorei o mercado. O que vi da praça achei mesmo meio caído, tipo feira hippie.
    Beijos a todos.

  12. Majô disse:

    hahaha Beto, adoro os dois, relógios e telefones 😆

  13. Reiterando. Nada contra os cachorreiros, nem contra os cachorros “passeados” pelos cachorreiros. Alias, nada em específico, no momento, também contra o capitalismo (nem contra o comunismo). Minha birra é contra os donos dos cachorros que pagam pra alguém passear com seus cachorros. É como botar filho em colégio interno e só ver ele nas férias, ou coisa parecida. Mas vamos deixar os cachorros em paz.

  14. Carmen disse:

    Beto,
    ¡É uma sorte que vocês não tengan um conjunto de ícones como os argentinos!!!.

    Bueno, alguno si tienen. Cualquiera del mundo entero conoce a Pelé, Ronaldo, Ronaldinho, Kakà…E que me dice de “la chica de Ipanema” o Gisele B, mais não son ícones, não. Son famosos o mundo entero, mais não sé si a Brasil lo son.

    Eu ví este Agosto en uma praia brasileira muitos argentinos. Homes e mulheres de edad avanzada, ellas con joyas e pulseras de oro en a praia e ellos con um aire de golpe militar, a lo Videla, que me asustó. A lo melhor eran encantadores e simpáticos mais a apariencia era siniestra.

    Buenos Aires é muy “chic”, elegante, distinguida e tiene un cierto aire europeo, mais europeo que Espanha. E falo de verdade!!!.

  15. Beto disse:

    Carmen, também acho uma sorte o Brasil não cultuar certo tipo de personalidades. Nem mesmo Pelé, tendo em vista a importância do futebol na cultura popular brasileira, é cultuado aqui como fazem os argentinos com os seus ícones. Mas falta-nos auto-estima, o que não é bom. O Brasil, alguém já disse isso, não conhece o Brasil. A tua descrição dos argentinos com ar de golpe militar é hilária. Mas Buenos Aires não me parece mais européia do que a Espanha (ao menos do pouco que conheço de Espanha). Na verdade, BsAs é meio fake, sem que por causa disso fique feia ou desinteressante. É fake, mas bacana. Beijo.

  16. Majô disse:

    haha Carmen, adorei os homens com ar de golpe militar. Sinistro mesmo 😉

  17. O textos estão muito informativos e ao mesmo tempo divertidos de ler!

    Parabéns!

  18. Diogo disse:

    Esse findi fechamos 20 mil pelo jeito, não?!

    Tenho fé que fecha sim… vai por mim que eu sou vidente 😉

  19. Diogo disse:

    Pelos meus cálculos, mais 161 e fecha 20000…

    Ai, ai, ai ai, tá chegaaAAAAaaando a horaaaaaa, o dia já veeeem, raiando meu beeeeem, la ra ra ra ra la la raaaa!!!

  20. Arthur disse:

    Diogo, te mandei parabéns 2x no Destemperados mas não saiu, fui bloqueado??
    😀

    Beto, muito bom os posts bonairenses!
    (PS: querendo transformar seu gato em casaco, tadinho dele! Vou contar essa história para minha noiva, para ela ficar horrorizada)

  21. Diogo disse:

    Betão é 20 miiiiilllll!!!!!

    Dá-lheeeeeeee!!!!!!

    Porra meeeeeu, parabéns pelo marco. Muitos e muitos acessos mais pela frente, e principalmente muitas, muitas, muitas, muitas e muitas viagens mais pela frente pra ter histórias lindas pra continuar nos contando 😀

    Um beijo orgulhoso do teu amigo aqui do sul,

    Diogo Carvalho

  22. O céu é o limite!!!!!!!

  23. Emília disse:

    Beto, tá bom demais…e adorei a primeira foto!

  24. Beto disse:

    Diogo, só tu deve ser responsável por umas 15 mil visitas 😆
    Lagartixa, O CHÃO É O LIMITE.
    Emília, foto de cão é covardia, né?
    Bjs

  25. Diogo disse:

    15.001 agora então!!!!

    Hehehehehehehe…

  26. Não, não! O limite é o subsolo, ou o subterrâneo de veludo, como preferirem. Ou ainda o metrô de Buenos Aires. E, por falar nisso, no metrô de Buenos Aires tem músico de rua cantando tango?

  27. Gaia disse:

    Inspirado esse. Pra variar amei. Queria mesmo saber sua impressão sobre nossa vizinha. Beijo

  28. Gaia disse:

    Ah, as sacanagens também foram essenciais!

  29. Zé Rodrigues disse:

    Olá Beto. Legal toda a história. Leve e solta. Valeu. Abraços do Zé.

  30. Débora disse:

    Olá Beto. Cheguei aqui pelo blog da Emília e simplesmente me apaixonei pelos seus textos leves, descoaldos, engraçados e ao mesmo tempo informativos.
    Gostei das fotos dos cachorros e amei a do gatinho amarelo, lindo!
    Parabéns pelo blog. Ganhou mais uma leitora.
    Abraços.

  31. Pingback: Día uno: city tour « A Turista Acidental

  32. Giulia disse:

    Eu tbm AMOOOOOOOOOOOOO cachorros!!!!!!

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