Istambul é um bom lugar pra passar vergonha

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Este post é só pra eu passar vergonha. Pra todo mundo ver como eu sou antigo, como as minhas fotos estão desbotando e como eu vivo tirando esqueletos do armário. Pra entender mesmo o tamanho do vexame, antes de seguir vendo as minhas fotos, clique aqui e veja como o Arnaldo do Fatos e Fotos de Viagens mostra o mesmo tema deste post. Ele postou em capítulos que eu numerei pra facilitar a leitura: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10 e 11. Achou deslumbrante? Então, tuma:

Minha viagem a Istambul foi em 1983, o meu ano… como é mesmo que se chamam os anos que dividem a nossa vida? Sabáticos? (Fui no dicionário e não tem nada a ver) Bom, cês entenderam, foi esse ano aí, em que passei todo ele viajando na Europa, com umas merrecas, unidade monetária da época, no bolso.

Eu vinha de quase um mês na Grécia, onde fiquei em Argos, no Peloponeso, e em Hânia, na ilha de Creta, catando laranjas e sendo surrado por sacos de azeitonas. Alguém me havia dito que em Istambul era tudo muito barato, a cidade era linda e eu podia ir de ônibus, desde Atenas, sem gastar muito.

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Na época, eu não estava muito preocupado com os destinos. Me interessavam mais os caminhos. Dei agora uma olhada no Via Michelin e vi que entre Atenas e Istambul são 1.134 km, um percurso a ser feito em aproximadamente 12h30 de carro. Mas na minha memória (se é que isto a que recorro com esforço pode ser chamado assim), eu havia embarcado no final da tarde em Atenas e levado uma noite e um dia pra chegar na fronteira. Já contei esta passagem em uma caixa de comentários no Viaje na Viagem, com alguns erros já corrigidos aqui.

A Turquia, na época em que estive lá, era uma importante cabeça de ponte da Otan. Aviões de caça cortavam o céu de Istambul várias vezes por dia, as avenidas ficavam às escuras durante a noite e as ruas eram cheias de soldados. O clima em toda a Europa naquele ano não era dos melhores. Havia uma sensação de que o mundo poderia ir pelos ares a qualquer momento, por causa do confronto EUA x União Soviética. Eu já havia ficado impressionado com a quantidade de caminhões de combate, cheios de soldados americanos, circulando pelas estradas alemãs. Só vendo entendi que a Alemanha era um país militarmente ocupado, 38 anos depois do fim da guerra.

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O blecaute em Istambul criava uma atmosfera estranha. Eu, supostamente de férias (na verdade, fiquei desempregado e vendi tudo o que tinha – motocicleta, geladeira, fogão, etc… – para pagar a viagem), no meio daquela fricção toda. E o estranhamento ficava ainda maior ao ver nas ruas algumas mulheres sob um mundo de panos sem triscar um só olhar.

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Estranhamento que desandou em dúvidas ao ser abordado num bar por dois rapazes turcos interessadíssimos na cultura brasileira, da qual nunca tinham ouvido falar. E que desaguaria numa imagem acabada nas conversas com outros mochileiros, de que pegar carona nas estradas turcas era mais fácil para homens de shorts do que para mulheres em qualquer traje. Histórias que também desandaram em exageros, como a de dois italianos sitiados num quarto de hotel de uma cidade do interior com uma turba de homens loucos para traçá-los no sentido bíblico. Quando se viaja sozinho, a insegurança pega na tua mão.

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Para completar o clima David Lynch, eu havia tido uma passagem esquisita em uma mesquita na cidade grega de Komotini, onde fui tirar o visto consular de entrada na Turquia. Com duas garotas gregas que conheci, entramos no templo e nos sentamos num canto, pra observar o povo rezando. Tudo muito respeitoso. Em cinco minutos estávamos rodeados por uns tipos barbados, com aquela cara plácida do Bin Laden, nos perguntando o que fazíamos ali, que não poderíamos permanecer pois não estávamos limpos. Cuméquié? Não respondo pelas minas, mas eu, pelo menos, tava de banho tomado!

Ainda não havia homens-bombas, nem mesmo guerra santa, mas o pau comia feio. O Al Fatah, com Yasser Arafat à frente, havia acabado de ser escorraçado do Líbano pelos israelenses, naquela guerra que destruiu Beirute. Achamos melhor obedecer e sair de fininho.

Tantas referências soturnas, e o fato de estar viajando sozinho há dois meses, não encobriram a certeza de que eu estava numa das cidades mais interessantes que eu já havia visto, impressão que permanece até hoje.

As lembranças concretas que tenho são imagens esparsas. O skyline da cidade, no contraluz do pôr do sol, com os minaretes das mesquitas espetando um céu repleto de gaivotas, milhares de gaivotas. A impressionante cantoria muçulmana chamando, de tempo em tempo, para a oração de frente para Meca. As mulheres de negro e com o rosto coberto. Um urso preso pela coleira passeando com seu dono. O Estreito de Bósforo e um restaurante sob a ponte, defronte a um mercado. Um peixe grelhado. A inacreditável idéia de ter um pé na Europa e outro na Ásia. Os templos imensos, Santa Sofia e a Mesquita Azul.

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O Grande Bazar, com seus corredores de tapetes, pedras, pratas e ouros. Móbiles, brincos e pingentes em forma de palhaço, com braços e pernas articulados, feitos de latão e coloridos a óleo.

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O Palácio de Topkapi, o harém inspirador, o diamante descomunal, os trajes bordados de ouro, os telhados da cidade e a caixa de jóias cuja tampa era um pesado elefante cravejado de pedras preciosas.

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Um dia volto a Istambul para visitar as muralhas de Constantinopla, que só vi ao partir, uma última imagem, quase perdida, através da janela do ônibus.

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Sobre Beto Paschoalini

É o que dizem por aí.
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21 respostas para Istambul é um bom lugar pra passar vergonha

  1. O tempo valoriza as fotos analógicas. Não vamos mais ter isso. Essas fotos remetem a um tempo que não existe mais em Istambul e fotos digitais não contariam sua história por lá… Adorei.

    PS: a Alemanha é um país ocupado até hoje.

  2. Mô Gribel disse:

    Adorei, Beto. Como sempre, você tem um jeito de contar histórias como ninguém.
    Um tanto melancólico, um tanto engraçado, outro tanto divertido…
    Isso tá me animando a pegar as minhas fotos antigas e passar elas pelo scanner.
    Ah, conta mais! Conta mais!!!

  3. Majô disse:

    Beto nosso correspondente no front em plena guerra, veja só !!!Seu relato está ótimo e retrata fielmente uma época que a maioria leu, mas não viu ou sentiu. Precioso seu relato. Como a Mô, conta mais, conta mais !! Como ela também me deu vontade de escanear fotos como se fossem peças preciosas. Adorei !!!

  4. Lucia Malla disse:

    Gostei muito do seu texto de Istanbul. Fiquei com vontade de passear nesse pedaço de David Lynch. 🙂

  5. Beto disse:

    O melhor que me ocorre é dizer que vocês são uns fofos… 🙂

  6. Carla Castro disse:

    Beto,

    mais um ótimo texto!!!

    Concordo com o Jorge, a nostalgia que as fotos analógicas conseguiram passar nunca poderia ser reproduzida por cameras digitais! Um perfeito complemento ao texto!

    Adorei!

    Abracos,
    Carla

  7. Diogo disse:

    Oh Betão, vim aqui pra pegar no teu pé e perdi a compostura… tu me desarmou. Texto lindo, e que teve um brilho todo especial ilustrado com essas fotos com alma.

    Lindo mesmo cara. Tá de parabéns.

  8. Beto disse:

    Fo-finhos, fo-finhos, fo-finhos…

  9. Fofinho, fofinho, fofinho. O mundo é mesmo uma rosquinha fofinha e cor-de-rosa!

  10. Beto disse:

    Desde que não tenha nenhum homem-bomba passando por perto e nenhum padre pedófilo ministrando primeira comunhão, né mesmo, Corvo cínico?

  11. Diogo disse:

    Hahahahahahahahahahahaha, adoro essas discussões animais, hehehehehehe…

  12. BETO, o que vale, mesmo, de verdade, é o CONTEÚDO, não a aparência, tanto das fotos quanto do texto, e nisso TODOS hão de concordar: você tem pra lá de suficiente! Sobra talento pra contar histórias com personalidade e bom humor. MAIS um texto bem-humorado e gostoso de ler. Obrigado pelas referências!

  13. Beto disse:

    Arnaldo, só tenho a te dizer que o teu blog tá magnífico… E recomendo a todos darem uma passada pra ficarem extasiados…

  14. Lhama, não sou cínico, não. Apenas um rapaz que acredita na raça humana. Por outro lado (que lado?), acho que chamaram a gente de bicho, Lhama. Que coisa!

  15. Beto disse:

    Não foi de bicho, Corvo, foi de animal… E quem falou foi o Gato Franjola :mrgreen:

  16. Emília disse:

    Para mim, que estou planejando ir para esse pedacinho de mundo no ano que vem, esse post veio com um sabor especial e a confirmação de que estou fazendo a escolha certa dos meus próximos destinos.
    Beijo, Beto!
    PS: Só faltou uma foto tua com a cabeleira loira 😀

  17. Karla disse:

    Procurando algumas coisas sobre Istambul, confesso que o teu texto foi um achado. Pretendo visitar o lugar ainda esse ano e estou colhendo informações a respeito.
    Bom, se não fosse pedir demais, gostaria de fazer uma consultoria com vc :-D. Abço.

  18. Beto disse:

    Karla, fui a Istambul em 1983. Não dá pra dar consultoria sobre o tema. Tente o Fatos e Fotos de Viagens, do Arnaldo Interata, cujo link você encontra na coluna à direita do meu blog. Ou então faça uma consulta ao Viaje na Viagem, do Ricardo Freire, no post Perguntódomo, sempre disponível na página do blog.

  19. catarina disse:

    Olá Beto!
    O teu blog é fenomenal! Tens muito jeito para contar histórias e vê-se que ten muitas paqra contar!
    Gostava de fazer-te uma proposta em nome de minube.
    Por favor, entar em contacto comigo, catarina@minube.com!
    Obrigada,

    Catarina

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