Vinhos que enlouquecem

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Adoro vinho, branco, rosé, tinto e espumante. Infelizmente, não tenho dinheiro suficiente para exercitar o gosto a fundo, explorando cepas e regiões até a última gota. Portanto, não sou um conhecedor, como tantos por aí, cada vez mais numerosos. Talvez o destino tenha me poupado, dessa forma, de ser ainda mais chato do que posso ser, engrossando a lista insuportável daqueles que pontificam sobre vinhos.

Vinho, pra mim, é a viagem engarrafada (copirráite: Vinícius de Moraes). Eu não entendo bulhufas de abacaxis, bananas, torradas, frutas vermelhas, pimentões, café, baunilha e chocolate feito de uvas. Quando alguém sopra, até posso identificar aqui e ali, a não ser quando a viagem é alucinógena, e o sopro fala em asas de borboletas amarelas ou folhas de amendoeiras calcinadas. Aí já acho botaram porcaria no vinho, como, diz a lenda, faziam os malucos que jogavam LSD nos reservatórios de água em cidades americanas, nos anos 60.

Eu gosto mesmo é de vinhos que enlouquecem, não a boca, mas o corpo inteiro. A genética me livrou dos vícios graves. Me apetrechou com um gosto agudo pela embriaguez, mas em compensação me dotou de um dispositivo que me deixa completamente prostrado, com um DJ interno de música eletrônica bombando na minha cabeça 24 horas após o êxtase etílico. O que inviabiliza excessos porque, como dizia Sir Lawrence Olivier, “quem tem um tem medo”.

Mas eu dizia que gosto dos vinhos que enlouquecem, independente da cor, da uva ou do terroir, se envelheceu em barricas de madeira ou cubas de inox.

O melhor vinho que já bebi, para horror dos connaisseurs mais fundamentalistas, foi um rosé, ou melhor, três da mesma marca, um depois do outro, geladinhos, junto com a minha mulher, uma das minhas filhas que não é minha e a minha sogra, na barra de um bar de tapas em Barcelona. Não lembro do buquê, se era ou não untuoso, se ficava entre o âmbar e o violeta, como era o gosto, o retrogosto, a acidez, se permanecia “em” boca, se evoluiu na taça ou se evocava tâmaras numa tarde de verão no deserto do Saara.

Lembro é que amamos cada gole, o suor da garrafa, o riso farto e a caminhada trôpega que antecedeu um sono profundo repleto de imaginação. E recordo também dos filhotes de sardinhas fritos em azeite, dos berbigões, ameijoas, lulinhas, camarões, pimentos e fatias de pão grelhado e barrado com tomates maduros que devoramos enquanto bebíamos. Ainda está bem viva a zoeira de vozes, talheres, pratos e copos, que fazia o bar girar, da crema catalana servida num pequeno cálice, do calor ibérico dos empregados da casa e da expressão de prazer de outros clientes em nos apontar os caminhos e nos ver tão felizes com a comida e a bebida do seu cotidiano.

A minha viagem enófila é bem ilustrada pela foto da garrafa acima. Uma garrafa vazia. De vinho, porque permanece mais cheia de lembranças apaixonadas do que antes da rolha ser extraída. Ela veio do sul da França, há uns 12 anos, sem rótulo e informações de origem, nas mãos da minha mulher, que até então ainda não o era, mas viria a ser velozmente. O vinho que continha não foi envasado na propriedade, mas por um futuro amigo, que o comprava a granel, em garrafão, diretamente do produtor. Não sei se era um Côte du Rhône, um Gigondas, ou um Chateauneuf Du Pape. Só sei que era de lá, das redondezas. E, como dizem sabiamente os portugueses, sabia bem demais. Como sabe até hoje.

O melhor vinho deixa saudade, pela qualidade do desequilíbrio.

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Sobre Beto Paschoalini

É o que dizem por aí.
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28 respostas para Vinhos que enlouquecem

  1. Clarice disse:

    Gostei Beto. A tua história de Barcelona me fez lembrar Cinque Terre, foram quatro noites bem parecidas com esta que descreveste divinamente……. Boa noite e bons sonhos……. 😎

  2. Mô Gribel disse:

    Oh, Beto…adoro seus textos! 🙂

  3. Luisa disse:

    Que delícia de texto!

    Tim-tim! 😉

  4. Majô disse:

    Haha Beto, como sempre o texto tá bom demais 🙂 Esta garrafa certamente, contém alegria de viver em excesso 😆 😆

  5. Carmen disse:

    Beto,
    Um recordaçâo

  6. Carmen disse:

    Beto,
    Desculpa
    eu estaba escribiendo (mais he tomado um pouco de vinho pra o almorço e me he emocionado com o texto) e o cometário ha subido. Eu quería dizer:
    Um recordaçâo entranhável!!!. (mais o vinho tem isso, eu me entiendo!!!).
    Um abraço

  7. Diogo disse:

    Cara, só uma coisinha rápida sobre o teu texto: PUTA QUE PARIU!!! Porra velho, me arrepiei, juro! Baixei o volume da tv, encostei a porta do quarto pra não entrar barulho, encostei a cara no monitor, li, reli, rereli e rerereli… enfim, concluí: são momentos como esses, narrados por ti, que fazem da vida uma coisa linda, cheia de lembranças simples e ao mesmo tempo inesquecíveis.

    Um beijo

  8. Diego disse:

    Adorei esse post Beto. Me identifiquei mto com o lance de não entender bulhufas, mas mesmo assim ser um apaixonado pela bebida.

    Eu brinco que os únicos aromas que eu consigo identificar são de uva e de alcool. Hehehehe.

    Abração

  9. Beto disse:

    Para todos: E quando é que a gente abre umas garrafas e enlouquece juntos?

  10. Diogo disse:

    As soon as possible a gente bate o ponto em Santos, convida o Corvo, o Oano, todo aqele pessoal, e abre umas sim!!

    Ou, podes vir pra cá antes né? A gente combina um tour pelos vinhedos. Agora no verão é a época da colheita da uva, a famosa Vindima. O que achas? Te programa com antecedência que é mais barato, Betão.

  11. Débora disse:

    Nossa, Beto, teu texto tá incrível, saiu lá do fundo do âmago! Emocionante.
    Eu tenho essa relação com a gastronomia. Não entendo um monte de coisas e ainda quero aprender mais uma porrada, só que a maior parte das boas lembranças da minha vida se relacionam com comida e bebida.
    E quando rolar esse “brinde enlouquecedor”, adoraria estar presente.
    Abraços.

  12. Beto disse:

    Diogo, essa rolha vai rolar logo, logo, em Santos, Sampa ou POA.
    Débora, porque vocês não vão ao encontro de sábado, no Rôti, em Pinheiros, pra conhecer a Majô que vem do Rio neste final de semana? Passa lá no Filigrana, que tão acertando os ponteiros…

  13. Arthur disse:

    Nada como uma boa história SIDEWAYS!

  14. Sylvia disse:

    Não bebo nadicas e lógicamente não entendo nadicas tb … mas o texto está uma gostosura !!

  15. Djilícia! E eu também sou chegado num rosêzim…

  16. BOM, infelizmente não vai dar pra dizer nada mais de diferente e criativo do que já foi dito aqui por todos a aí em cima por este texto maravilhoso…

  17. disse:

    Beto, adoro tomar um porre dos teus textos. Mais uma vez, me embriaguei. O bom é que eles nunca me dão ressaca; são de ótima qualidade e de origem controlada 😀

    Take care… :mrgreen:

  18. Débora disse:

    Beto, não estava sabendo desse encontro! Às vezes almoço no Rôti pois trabalho próximo dele. Com certeza eu e o Fernando iremos. Você virá pra SP? E com quem deveo falar pra avisar sobre nossas presenças? Muito obrigada, pela dica e até sábado!

  19. Beto disse:

    Arthur, Sylvia, Riq, Arnaldo e Zé, a turma do fundão.
    Débora, deixe um recado lá no Filigrana, reservando mais duas presenças. A Majô é que tá nas cabeceiras. Bjs.

  20. Débora disse:

    Beto, já deixei o recado, mas ela ainda não respondeu. De qualquer forma, nossa presenção está confirmada. Nos veremos sábado à noite.
    Abraços e até lá!

  21. Paulo e Ana disse:

    Estava inspiradíssimo como sempre hein Beto, grande texto etílico!!!

    abs

  22. Esse lance de “até a última gota” é show!

  23. Érica França disse:

    Belo texto e concordo contigo, o que ficam são as lembranças, não o nome, a região, a textura e afins. Beijos.

  24. Emília disse:

    Como te disse lá no Rôti, me identifiquei totalmente, Beto. Esses momentos etílicos felizes são difíceis de sair da memória…mais um texto espetacular, o que mais posso falar? 😉
    Beijo!

  25. Passando por aqui apra saborear mais uma evz o delicioso texto enófilo etílico e convidá-lo a dar uma passadinha no Havaí. Já está no ar o primeiro capítulo do FATOS & FOTOS de Viagens no HAVAÍ. Te espero lá! Abraços cariocas e havaianos.

  26. Carmen disse:

    Feliz Natal pra você e a sua família!!!

  27. Marcio disse:

    Caraca!!! Belo texto Beto!!!!!

    Abração!!

  28. Eu só presto atenção no vinho em viagens e só gosto de beber o que bebi viajando. Eu até queria entender mais, mas não consigo aprender, acho que bebo além do que permitiria a aprender. Lindo texto, você é um verdadeiro escritor.

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