Uma colza é uma colza

Entrar e sair de carro das grandes cidades européias está sempre associado, no córtex cerebral de quem tem, a um certo pânico. Trânsito intenso, diferenças de sinalização, a barreira do idioma, os usos e costumes e o espírito de porco que se apodera dos corpos dos motoristas, em qualquer parte do mundo, são motivos de sobra para a gente sempre evitar cruzar sobre 4 rodas as áreas urbanas densamente povoadas.

Mas de todas as cidades européias por que passei, Paris sempre me pareceu a mais fácil de se encarar grudado num volante. E para quem é capaz de dirigir em São Paulo, convenhamos, até Nova Delhi e Calcutá podem ser mais amigáveis do que parecem.

Eu já havia dirigido em Paris e foi um bom batismo. Depois daquilo, nada poderia ser mais traumático. Na ocasião, eu precisava mudar de apartamento e pedi emprestado a um amigo o seu Mini Morris. Não me perguntem como alguém faz mudança num Mini Morris, mas eu fiz. Só não lembro mais como. Em plena Periphérique, a caixa de câmbio do carrinho foi pro beleléu. Então, a situação era a seguinte: eu, parado no meio daquela Marginal Pinheiros de Paris, com um Mini Morris lotado de tralhas até o tampo, mal falando o francês e sem entender por que aquela joça havia parado de obedecer aos meus comandos.

Serviu ao menos para eu melhorar o meu vocabulário: aprendi, com cara de parvo, o que é uma boite de vitesse. Foram as palavras do motorista do guincho, que eu não compreendi na hora, apesar de perceber serem sinônimos de prejuízo. Fui humilhantemente rebocado a uma travessa qualquer da avenida e nem vou relatar a devolução da viatura, cujo estrago eu nem mesmo podia reparar, tendo em vista a minha avassaladora miséria bichogrílica de então. Por incrível que pareça, o meu amigo continua meu amigo. É mesmo um irmão (alguém lembra do cara que resolveu arrancar as orelhas na toca da lagosta? É ele).

De volta para o futuro, desta vez eu devia resgatar um Peugeot no aeroporto de Orly para ir buscar a Teté no hotel, no centro da cidade. Fi-lo porque qui-lo, pois achei mais econômico do que pegar um táxi e infinitamente mais confortável do que embarcar e desembarcar malas em táxis, ônibus e/ou no RER.

Tracei a rota no Via Michelin e fui praticamente numa só reta, sem um só erro, até a porta do hotel, feliz como pinto (o filho da galinha) no lixo. Só não deu pra fotografar, porque se tivesse 6 olhos eles estariam fixos na sinalização.

Já com a Teté e as malas a bordo, resolvemos nos perder um pouquinho. Subimos (ou descemos?) a Saint Honoré e, naquele labirinto de mãos e contramãos, chegamos junto à Notre Dame.

Dali, não faço a menor idéia como, chegamos à Ile St. Louis, onde, incrível!, não conseguimos estacionar, mas parar numa área de carga e descarga…

… onde fiquei de plantão enquanto a minha navegadora fazia compras na Pylones.

A Pylones é uma loja muito divertida. Os designers que trabalham são uns gozadores.

Eles subvertem utensílios banais, como talheres, escovas de cabelos, canetas e lápis, eletrodomésticos.
Sair de Paris é fácil mas é difícil. Lá, os pontos cardeais estão nos lugares certos, ao contrário de São Paulo, onde eles são móveis e escorregadios. Então, basta traçar uma linha reta, tendo em conta a direção do seu interesse, que você vai chegar na Periphérique (o anel viário da cidade) onde se encontram as saídas da cidade. Pode ser difícil achar a saída certa, mas com atenção e sorte, uma hora você chega lá. Escolhemos a avenida que margeia o Sena, seguindo em direção oeste.

Passamos pela Ponte Alexandre III, com o Petit e o Grand Palais na outra margem.

Atravessamos a Pont de L’Alma e saímos na avenida George V, para chegar à Champs Elysées.

Contornamos a Etoile e entramos na avenida de la Grande Armée.

De frente para La Defense, chegamos à Periphérique.

Não me perguntem como encontramos a saída para a estradinha distrital que nos levaria a Chartres, uma escala onde encontraríamos os nossos amigos que vivem no Loire.

 A primeira visão do campo na França no mês de maio são as plantações de colza (leia-se colzá). O desmilingüido Larousse de bolso que levamos não tinha a tradução. Então passamos as férias sem saber o que era colzá.

A visão daquele amarelidão nos deixou muito contentes. A gente fica bêbado fácil, com qualquer paisagem florida. Daí a parar e fazer o aviãozinho foi um palito.

Eu nunca havia ido a Chartres, apesar das recomendações do meu médico. E, pra variar, sempre que você quer muito conhecer um monumento na Europa, ele está em obras de restauração.

Felizmente, era só do lado de fora. A Igreja Católica é um horror, né mesmo? Torturou, perseguiu, deu e dá maus conselhos, aliou-se aos maiores canalhas da humanidade e se acovardou na maior parte das vezes em que as suas ovelhas precisavam de apoio. É, pois, um grande exemplo da alma humana. Esse caminho das trevas foi que possibilitou o poder de construir templos seculares belíssimos como a Catedral de Chartres, com seus magníficos vitrais. Uma elevação.

A grande sacada da Igreja Católica é a absolvição final. Confessou, chupou uma hóstia e acendeu a vela, limpeza, zerou a folha corrida.

É melhor mudar esse papo furado, pois daqui a pouco tá todo mundo como as duas moças à sua direita na foto abaixo: dando a mínima pro sermão.

Chartres me impôs uma profunda reflexão que me deixa muito preocupado quanto ao futuro. Além de ter que carregar um laptop na próxima viagem que eu fizer, pois é impossível usar uma câmera digital e fazer posts em tempo real sem um, comecei a considerar a hipótese de carregar também um tripé.

É impossível fotografar decentemente alguns dos mais magníficos vitrais do planeta sem um apoio que não seja um encosto de cadeira ou o próprio corpo aplastrado numa coluna, numa apnéia inútil.

À saída da catedral, apesar de não termos documentado, comungamos uma boa cerveja na praça ao lado e deixamos ali, aos pés da santa cruz, todos os pecados que pesavam sobre os nossos ombros. Leves e felizes, chegamos a Vauchalupeau, onde havíamos estado por um dia, naquela viagem de 1998. A vista da foto abaixo é da janela do quarto que nos foi gentilmente oferecido pela família Gregoire-Partouche, velhos amigos da fase Pindaíba-1983.

Vauchalupeau não está no mapa. Nem adianta googlar que não aparece. Tem que botar as coordenadas. Fica próximo a Mazangé e Vendôme. Mas falo disso em outro post. Agora vou mostrar a recepção. Patê de fígado, terrine e outras gostosuras que vocês não vão querer saber como são feitas.

O queijinho de cabra ainda tá com o preço. Vocês não vêem, mas eu sim: menos de 3 euros. O que me deixa muito deprimido toda vez que vou ao mercado e tomo consciência das porcarias que nos impingem a peso de ouro.

Por fim, a casa centenária que nos serviu de base durante os 5 dias em que fomos paparicados por Jean Luc e Marie.

Antes de terminar, devo explicar que ao chegar ao Brasil fui a um dicionário decente procurar a tradução de colza. E uma colza é uma colza, em português ou francês. Tal como eu desconfiava desde o princípio.

Anúncios

Sobre Beto Paschoalini

É o que dizem por aí.
Esse post foi publicado em França, Paris, Vale do Loire e marcado , , , . Guardar link permanente.

15 respostas para Uma colza é uma colza

  1. marcelo disse:

    Sempre quis saber o nome dessa planta amarela. Brincávamos que era “curry”…

    abraço!

  2. w.Moscolini disse:

    Maravilhoso!!!! Tudo, cada cantinho!

  3. Arthur disse:

    Muito legal a aula de direção em Paris e arredores! Abraços!

  4. Letícia disse:

    OI Beto, seus posts estao otimos… fiquei mais tranquila ao ler q sair de Paris não é tão difícil assim… rs

  5. Thamy disse:

    Oi meu querido padrasto escrevo para agradecer de coração os minutos de alegria que acabaste de me proporcionar. Tô trabalhando e mesmo assim me transportei total deste escritório no meio da cinzenta SP. Tô morrendo de saudades de Paris, tô apaixonada pelas flores amarelas e tô com muita muita água na boca do vinho, do queijo….enfim de tudo. bj Thamy

  6. Lucia Malla disse:

    Beto, meu caro, q delícia de post!! Ainda por cima termina com essas fotos maravilhosas de terrine. Ai, q dá vontade de pegar o primeiro avião pra Paris.. com trânsito e tudo. 😀

  7. Adri disse:

    Oiii Beto, tudo bem?! Obrigada pela dica do hotel Lion D’or em Paris…ano que vem tentarei me hospedar lá, com certeza!!!
    Vc já voltou pra nossa terrinha, ou tá curtindo o Vale do Loire?! Ai ai…tá vontade de fazer tudo quando estamos por aí, não é mesmo?!
    Queria mais uma dica Beto! Vc tem um agente de viagens confiável pra me indicar?! hehehe
    Agente de viagens é igual a advogado,..nós só percebemos o que contratamos na hora que a “vaca foi pro brejo”…hehehe
    Com todo respeito aos advogados…sou bacharel em direito, mas só isso hehehehe
    obrigada beto!

  8. Emília disse:

    Beto, fico muito feliz que você volte com tantos posts bacanas e deliciosos sobre este país que eu amo tanto. Ler teus textos é diversão de primeira!
    Adorei especialmente a casa dos teus amigos, muito acolhedor, região belíssima.

  9. deiatatu disse:

    Oi Beto

    A traducao da colza tambem me deixou intrigada…. aqui na Alemanha também tem esses campos… ´Soh pra certificar dei uma olhada no dicionario online e a “colza” é a nossa canola 🙂
    Lindas Fotos

  10. Tess disse:

    Dirigir em Paris é terrivel, quase fui atropelada na Saint Michel com o sinal verde para pedestres, eles não respeitam sinais, não vêem ninguém seguem em frente.

  11. francisco disse:

    Engraçado que comigo tambem amigo, nao foi nada fácil encontrar o signigicado de “colza”. Entrei no google e ele me direcionou aqui na sua linda historia pela Paris. Agora ce bizarre que no seu texto vc nao sabia o que significaba a tal COLZA e entao na volta pro Brasil continuou sem saber. Eu tambem, apesar da viagem a Paris, que aliás muito saborosa, lembrando do patê e da terrine, vou ter que me “dirigir” nao no morris, mas em outro site pra saber que bananas é a tal coisa.
    hahahahahaahah
    coisas da internet…
    abraço
    ps: já aproveitando… me diz se o patê que voce saboreou era o famoso frois gras??

  12. Amei esse blog! Esse relato!

  13. Antonio disse:

    Olá,
    Viajar na França e na Suiça de carro é muito fácil, não se precisa nem de GPS, um twingo, um mapa e uma bússula são suficientes, um ótimo lugar para alugar um carro em Paris no aeroporto CDG é http://www.ttcar.com, pode confiar neles.

  14. Pingback: Pequenas anotações de viagens virtuais 35 - Uma Malla Pelo Mundo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s