Não é por falta de assunto

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Sabe quando você quer mas o corpo não obedece? Corpo, no caso, compreende o que me resta de cérebro. Passei estes longos dias de ausência rabiscando rascunhos, sem concluir nenhum, por causa de uma dor no braço e uma preguiça atávica. Pois bem, tô aqui fazendo a fila de posts andar, pra não pensarem que o blogueiro morreu de vez. E demonstrar que a vontade vence a tendinite e a lerdose, ainda que isto, no meu caso, ainda esteja para ser comprovado cientificamente.

Recentemente, o Ricardo Freire, do Viaje na Viagem, mencionou o meu blog num de seus textos em Época, o que fez eu me sentir bem e mal ao mesmo tempo.

A sensação boa é óbvia, pela referência feita por um cara cujo trabalho eu admiro, dadas a graça do estilo e a qualidade das informações. A má fica por conta de receber visitas novas, a partir do link que o Riq fez no site da revista, com o blog desatualizado, sem ter completado o relato da viagem à Provence e à Côté d’Azur, mesmo com um monte de fotos de lugares lindos confinadas ao escurinho do HD e que eu prometo, um dia, trazer à luz dos monitores.

Com o devido pedido de desculpas pelo cavalo de pau nesta conversa, todos devem ter notado que no final do ano, entre pernis e antiácidos, explodiu a guerra na faixa de Gaza. Fato quase tão previsível, e, digamos, costumeiro, quanto a azia e a culpa causadas por aqueles (eu disse aqueleSSSS) Bolos Reis que devorei às escondidas, pedaço a pedaço, amêndoa por amêndoa, numa blitzkrieg individual que deflagrei contra as baterias de tupewares antiaéreos espalhados pela cozinha da minha casa.

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Se por um lado eu sou frio e impiedoso no extermínio de Bolos Reis, sou completamente avesso ao extermínio de vidas humanas, sobretudo à minha própria e às dos que me cercam. Digo isto porque amigos meus estavam com viagem marcada para o Egito, Jordânia e Jerusalém, antes de explodir essa guerra escrota. Pensei que, se eu estivesse no lugar deles, talvez cancelasse a viagem ou, no mínimo, refizesse o roteiro em direção oposta ao sinistro e fui olhar no mapa. As alternativas seriam, a partir do Cairo, as ilhas de Creta, Sicilia, Malta. Ou a Tunísia. Mas os meus amigos mantiveram, para minha aflição, o Vale dos Reis e Petra, na Jordânia. Acho, espero, desistiram da Terra Santa. E tudo vai dar pé, porque sempre dá, e o passeio ainda irá render boas histórias.

A viagem deles, no entanto, me fez pensar nos motivos por que eu nunca considerei conhecer aquele pedaço tão interessante, e próximo, do planeta. Eu jamais pensei em viajar para o Oriente Médio. Parei na Turquia, ou melhor, em Istambul, e pra falar a verdade, nem sei muito bem como eu fui parar lá. Naquela época, entrei numa mesquita sem a menor noção do que estava fazendo, mas fiquei assustado quando um grupo nos cercou e disse que éramos impuros.

Os caras, como todo mundo sabe, se lavam (numa variação do banho tcheco) antes de adentrar ao templo.

De fato, além de estarmos ali por motivos aparentemente idiotas, não fizemos corretamente as nossas abluções. Acho mesmo que eu estava com chulé. Nada mais natural, portanto, que os fiéis da igreja nos pedissem, gentis e subrepticiamente ameaçadores, que saíssemos rapidinho dali.

Esse tipo de situação me irrita por um motivo. Estou certo de que aqueles caras, fora da igreja, tinham muito mais chulé do que eu (que sofria na época um surto casual de budum podológico, devido ao uso contínuo de uma indescritível bota Vulcabrás terracota  e meias de lã tão mal lavadas que podiam manter-se em pé mais equilibradas do que eu, o que não é nenhuma vantagem).

Toda religião tem regras idiotas, como na católica, que entre outras não permite entrar de bermudas em seus templos, um dos motivos que me levaram a abandonar a vida religiosa, ainda na adolescência.

Quando viajo, gosto, entre outras coisas, de ver igreja, templo budista, sinagoga, mesquita, ruína, coluna dórica, catacumba, aqueles corpos retorcidos e empedrados de Pompéia, o pó da história cobrindo o chão. Gosto mais ainda de travar contato com as diferenças culturais, submergir no estranhamento. É como ler um livro, ver um filme, uma peça, só que a gente tá dentro do cenário e ele é real, tem cheiro, som, sabor e textura.

Mas tenho alergia à pregação e ao fundamentalismo religioso. Prefiro ter chulé. Estive em Santiago de Compostela, Assis e posso dizer que frequento o Vaticano. Mas nunca fui a Fátima, nem a Lourdes, que me parecem as versões mais próximas, dentro da minha ignorância universal, a Meca e a Jerusalém. A semelhança está no tipo de peregrinação e nas demonstrações selvagens de fanatismo sadomasoquista. Aquele negócio de bater com a cabeça no muro, carregar vela em formato de perna, chicotear as próprias costas,  andar de joelhos e outras demonstrações de boçalidade arrogante e pretensiosa me metem medo e embrulham o estômago.

Não estou certo de que estes são os motivos para eu nunca ter considerado ir ao Oriente Médio. Na verdade, o mais provável é que eu não tenha tido fundos para fazer essas viagens e ao mesmo tempo satisfazer a minha vontade, até o momento não saciada, de voltar a Paris, Barcelona, Lisboa, Roma e às suas respectivas adjacências. Mas faço aqui uma promessa: se eu ganhar na mega acendo uma vela do meu tamanho em frente ao Taj Mahal e, assim que os meninos e meninas  judeus e palestinos começarem a fazer troca-troca, mènage à trois, swing e/ou sexo à papai e mamãe, jogo flores pra Iemanjá no Mar Morto.

Que deus nos proteja dele mesmo.

Saravá e boa sorte aos meus amigos em viagem e a todos os que, na Palestina, sobrevivem aos mísseis  e aos livros sagrados.

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Sobre Beto Paschoalini

É o que dizem por aí.
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14 respostas para Não é por falta de assunto

  1. Carla2 disse:

    Beto, vou imprimir seu post e sempre que me perguntarem sobre religião, ou quando eu quiser dizer o que penso sobre o tema, vou ler o que você escreveu aí em cima. Simplesmente você conseguiu por em palavras o que eu sinto e nunca consegui expressar corretamente. Quanto aos seus amigos, isso é que é espírito viajante, nunca se deixar abater, nem pelas guerras, afinal, há coisas mais importantes a se fazer por aí!!
    Beijos,
    Carla
    PS: sobrou alguma tuperwarezinha por aí? Fiquei com água na boca dessa foto… uhmmmm djilícia!!

  2. Zé Rodrigues disse:

    Oba Beto. Pode cacarejar quanto quiser, que o som chega aqui em tom de valsa.
    Duas coisas. Chega o tempo de se enquadrar as religiões. Só dividem, separam, agridem, enriquecem os seus líderes. Mais vale a luta pela cidadania, pelo crescimento sustentável.
    Outra coisa. Não põe mais essa foto de bolo dos reis. Muita maldade deixar agente com tanta água na boca.
    Manda viagem que faz bem.

  3. sônia disse:

    Beto, a minha resistência em conhecer o oriente médio está por conta também do fanatismo religioso e dos costumes culturais, como o da mulher coberta até os pés, que não concordo. Entendo mas não concordo. Não tenho paciência para lidar com gente fanática, em qualquer campo.
    E então prefiro deixar meus euros em, principalmente, Lisboa, para onde tentarei voltar neste ano.
    Quanto à Fátima, é uma Aparecida na Europa. Fui uma vez para trazer de lá uma lembrança para uma tia. Achei bonita e só. Ao contrário de Santiago de Compostela, Vaticano, Assis e outras igrejas que não lembro o nome ,onde me emocionei.
    Me emociono por razões culturais. Por isso, é a mesma emoção que tive quando vi Barcelona e Veneza a primeira vez, sem falar de Lisboa.
    Beijos
    sônia

  4. Mari Campos disse:

    Fenomenal, Beto! Acho que eu vou fazer que nem a Carla e imprimir seu post e deixar na bolsa :mrgreen:
    Happy new year procê, cheio de esperanças por um mundo melhor 😉

  5. BETO, muito bom, boníssimo post, como tantos. Eu também desistiria, mas apenas da Terra Santa, jamais de Petra nem de Amã, na Jordânia.

    Todavia eu concordar com suas afirmações relacionadas às religiões e aos fundamentalismos, e ir mais além do que você em “abandonei a religião ainda na adolescência”, já que a deixei – a católica – na pré-adolescência e jamais a substituí por nenhuma outra (confesso que se fosse obrigado a ter um Deus e uma religião eu me bandearia para o lado do budismo) . Religiões sempre provocam as piores discussões e desentendimentos, guerras e as piores limitações humanas. Que inveja em tenho de quem escreveu o livro ” Deus é um delírio” !

    Considero que religiões, sejam quais forem, não devam ser motivos para deixarmos de conhecer um destino turístico e um povo.

    Já tive o privilégio de ir algumas vezes ao Marrocos, uma vez à Tunisia, uma a Dubai, duas a Istambul, uma ao Egito não vejo a hora de chegar abril, quando irei à Síria e Jordânia – dois países do mundo islâmico autênticos e sem estereótipos.

    O Lonely Planet Guide escreveu sobre A Jordânia e a Síria:

    “Devido ao nada lisonjeiro perfil de que desfruta o Oriente Médio na mídia internacional – seja por seu improdutivo solo desértico, seja pelo fanatismo religioso e por sua propensão às guerras – Síria e Jordânia certamente surpreenderão positivamente o visitante, não apenas pela segurança que desfrutará em todo o território, mas especialmente pela simpatia e hospitalidade das mais cativantes do mundo.

    O mais próximo que você estará de ser sequestrado por um fundamentalista islâmico será de ser arrastado pafa dentro de um café ou mesmo de uma residência para um chá e uma conversa.”

    E mais:

    “Em viagens frequentemente as coisas não acontecem tão bem como em nossa cidade, algumas vezes elas podem ser melhores, outras poucas, muito melhores. Em que poucos lugares do mundo você pode deixar seus pertences desacompanhados por horas, lembrar-se deles, ir buscá-los e encontrá-los intactos. E por quantos países do mundo você pode perambular pelas ruas a qualquer hora do dia ou da noite sem sentir medo por sua segurança?” The Lonely Planet guide to Jordan and Syria (p. 9).

    Tanto Síria quanto Jordânia são grandes exemplos de convivência respeitosa e pacífica de seus povos, ainda que com profundas diferenças religiosas e étnicas.

    São países seguros e com sistemas políticos que não dão motivos para preocupações. As penas são bastante pesadas para quem comete crime e os sírios e jordanianos são povos pacíficos, tidos como extremamente simpáticos, acolhedores, gentis e cativantes.

    Por tudo o que li para preparar-me para esta viagem, pode-se passear à vontade que ninguém incomoda, a não ser, é claro, os vendedores, mas isso é recorrente em menor ou maior graus em qualquer país muçulmano.

    Estou torcendo para que seus amigos façam uma viagem espetacular e incomparável, que tudo ocorra bem e que fundamentalistas israelenses e islâmicos acabem com si próprios ANTES de acabarem com a região toda.

    O segredo do sucesso de uma viagem a um lugar extremamente fundamentado em religiões, sejam quais forem, de Fátima a Mecca, está em nos abstrairmos exatamente de TUDO o que se relaciona com as religiões e nos focarmos na história, antropologia, arquitetura e cultura. É assim que faço, o que acaba dando para “engolir” excessos inerentes a toda e qualquer religião.

    Em nenhuma viagem a nenhum país muçulmano tem-se que ” lidar com gente fanática”, como disse a Sonia, até porque mulheres de chador – a roupa preta dos pés à cabeça e que cobre até os olhos – não se `relacionam` com ocidentais, são extremamente reservadas.

    Todavia, se seua amigos decidirem-se por Creta, Sicilia, Malta, eu diria que estarão bem servidos igualmente de história, antropologia, arquitetura e cultura. Na escala de importância, eu apenas inverteria as posições para Malta em primeito, Sicília em segundo e Creta em, bem, já que não há um décimo lugar, a deixaria em terceiro e último mesmo.

    Espero que logo possamos ler seus relatos sobre a Costa Azul. Grande ano e sucesso!

  6. Ah, as abluções são simbólicas, para tirar “impurezas” não chulés ou sovacos! è como os véus que os católicos têm que colocar na cabeça, ajoelhar-se diante de um altar, como os cabelos cortados e os calçados tirados pelos budistas e xintoístas antes de entrarem em seus templos, tudo na verdade grandes simbolismos de “purificação”.

  7. gravatinha disse:

    clap, clap, clap 🙂

    bolo rei até que nem (odeio fruta cristalizada)… teve casquinha?

    g

  8. Majô disse:

    Beto, seu texto como sempre, está magnífico !!! Só você consegue abordar com maestria, intercalando com humor essa guerra maldita fundamentada no orgulho e que massacra inocentes e tanto nos entristece :mrgreen:

    Um ótimo 2009 para você e Teté 😆 😆

  9. Filipe Paschoalini Sobrinho disse:

    Betinho, parabéns pela qualidade não só deste post como pelo Blog!
    Só não sabia que o meu tio era punk…
    Um beijão

  10. Diogo disse:

    Betão,

    Gracias pelo recado carinhoso lá no blog. A gente vai dar um jeito de te mandar pra Punta uma hora dessas. Não é justo isso.

    Até porque lá não temos problemas com credos, cores e religiões. Nem guerra! Só pela boa mesa 🙂

    Bjo pra ti e pra family, e que Deus, Buda, Maomé, Jah, ou sejá lá quem for, continue iluminando essa cabecinha genial!

  11. Mirella disse:

    Oi Beto, Tudo bem?
    Pois é… essas guerras , exageros religiosos e afins são idiotas… e depois que fui a Israel (Dec.2006) percebi que não há como essas diferenças em Palestinos e Judeus serem apagadas ou mesmo apaziguadas…
    Porém, recomendo demais sua ida a Israel… eu gostei muuuuuuuuito. E é estranho pensar nessa guerra pois tenho sempre a impressão que Gaza fica longe dos lugares que vc visitaria.
    Um amigo (que ficamos na casa dele) morou em Israel por vários anos e ele sempre diz que a TV mostram o que eles não veem. Estranho, eu sei!
    Abs

  12. Carmen disse:

    Os humanos temos sorte de que existam pessoas como você com as mentes tão claras. Beto, chapeaux!!! (ao provençal…) Atualmente dá medo dizer o que se pensa de verdade…

  13. Maria Lina disse:

    Beto.
    Em recente encontro de blogueiros me falaram sobre você. Seus artigos sobre Paris e França estão ótimos. Muito prazer.
    Lina

  14. Beto disse:

    Prazer é meu, Maria Lina. Sou freguês do teu blog faz tempo. Abraço

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