Quinta-feira vazia, em Saint Tropez

Quinta-feira sem graça, nem sol, nem chuva, temperatura assim-assim. Era uma tarde dessas, como hoje, em Saint Tropez, há um ano. Nada pra fazer, a não ser repetir clichês.

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Um dia em busca do pain aux raisins perdido. Um dia olhando os babacas de frente pro mar. Um dia pensando em como eram bons aqueles velhos tempos, se hoje em dia ainda assim é tão bom.

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Um dia sem galhos pra quebrar, sem horário pra chegar, um dia vadio na Côte D’Azur.  

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Saint Tropez um dia já foi. Mas ainda é, diferente. Menos espontânea, mais mercante, ainda assim, simples e bela como um barco, uma rede, uma gaivota navegando no ar.

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Uma tarde de quinta, em vez de trabalho, rotina e pentelhação, vadiagem na rua do Clocher, contando tons de ocre e espiando pelas frestas.

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Um dia admirando portas e janelas, como se pra isso fosse preciso atravessar o mar, não bastando só pensar.

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Um dia pra olhar a vista, de quem já foi, de quem está, de quem vai e que gostaria de ir e ali ficar.

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Ficar ali, morto e enterrado, pra sempre, sem reclamar das sombras… 

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… da memória perdida, do tempo mal gasto, do vermes da terra.

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Se não é bom pra morrer, quinta-feira é sempre um bom dia pra olhar o mar.

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Sondar o movimento dos barcos, o por-do-sol.

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E, nos últimos raios do dia, pensar que um dia, talvez numa quinta-feira igualmente vazia, o melhor a fazer tenha sido olhar os homens jogando bola numa praça de terra, sem noção da fantasia.

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No reino encantado do Pinto

Não é isso que vocês estão pensando não, seus sexistas filhos da mãe. Mas o reino encantado do Pinto também é um lugar quente e confortável. E está sempre molhadinho. O Pinto de que estou falando fica a dois palitos do Saco… da Capela. Portanto, em nome do pai, do filho e do espírito santo, o tal do reino encantado do dito cujo é apenas uma praia de Ilhabela banhada pelas ondas do Oceano Atlântico. Viram como vocês estão poluídos? Não é só o Canal de São Sebastião não, que até que dá pro gasto se o compararmos com o que passa pelas nossas cabeças quando confrontamos algumas palavras-chaves.

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O que estou dizendo é que o Pinto é bom porque está mais à mão. Antes que vocês mudem de blog, em busca de leituras mais edificantes, explico. A Praia do Pinto é boa porque fica pertinho da casa da minha cunhada, no Saco da Capela, a 10 minutos de carro, entre o Sino e a Armação (que não se chama Armação do Pinto, como insistem alguns).
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O Sino e a Armação servem ao farofismo, mas o Pinto não. Ele resiste, devido ao fracasso da luta de classes.

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Um condomínio megablaster, com altas casas de frente pro mar, muitas conservando a vegetação de restinga na faixa de areia fronteiriça, impede o acesso de veículos que não pertençam aos felizardos proprietários das mansões objetos da minha insaciável cobiça. Como poucos querem pagar as 10 pratas do estacionamento na entrada do condomínio, vão encher a paciência dos outros nas praias vizinhas.

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Pois foi no reino encantado do Pinto que eu  satisfiz as minhas necessidades mais fundamentais de contato com a natureza neste final de semana, em que comemoramos o enforcamento e o esquartejamento do pobre Tiradentes. Fazia tempo que eu não ia à praia. Tomar banho de mar. Manter o bronze, que junto com os cabelos louros e o abdômen definido caracterizam a minha pessoa. A praia (???) de Santos não conta. Não tem mar e a areia é uma substância controvertida. Vou como quem não vai, portanto, esqueça o que acabo de dizer.

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Por falar em abdômen, descobri no Pinto um equipamento do cacete (não, não vou fazer trocadilhos maliciosos e vulgares) para manter a forma. Trata-se da barraquinha dos irmãos Murico e Cláudio. Serviço de alto padrão, podem confiar.

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Aperfeiçoamos o shape abdominal com deliciosas porções de lulas à dorê (a lula na Ilha é sempre especial), isquinhas de peixe, caipirinhas de limão, maracujá e abacaxi, cerveja ge-la-di-nha na camisinha. Os caras têm a manha, limpeza absoluta, atenção idem. Esperei, bebendo cerveja, chegar as porções e as caipiras para fotografar. Quando chegaram, esqueci. Então, para preencher com fotos o segmento gastronômico deste post, ilustrei com o duelo de titãs entre Rocha e Rochinha, disputando cada grão de areia pelo título de melhor picolé de coco, que pra mim é o de amendoim.

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Mas o Pinto não é feito apenas de guloseimas e mar azul. Dependendo do dia, sedentos animaizinhos, fêmeas no cio, dizem, agarram-se ávidos às nossas canelas. São os simpáticos e cultuados borrachudos, ou borrachudas, que, por que eu não sei, não me picam muito. Devem detestar sangue azul. Mas neste fim de semana não tinha muito não. Aparentemente, foram substituidos por estrelas do mar. Catei uma para fotografar na areia, suscitando protestos desesperados dos ecologistas presentes, aflitos com a agonia daquele ser indefeso, obrigado a sorver ar puro em vez de filtrar a água do mar para retirar dela oxigênio.

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Deixando de lado mais detalhes científicos da experiência, ficamos espantados com os caranguejinhos pegando carona. 
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Caranguejos que já marcaram presença na areia em outra visita que fizemos ao Pinto (e que num passado recente, povoavam intensamente as areias das praias de todo o Litoral Norte). Sob intensa pressão psicológica dos ecologistas, agoniados com o afogamento às avessas da estrelinha, corri para devolver o bicho ao seu habitat e, por que não dizer, à vida.

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Como o assunto é o mundo animal, não podemos deixar de registrar a ocorrência do encalhe de um boto cor-de-rosa em plena praia. Uma imagem que nem o Jacques Cousteau conseguiu obter em sua expedição amazônica. Um verdadeiro espetáculo.

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De resto, o barquinho vai, a tardinha cai.

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Viajando na janela

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Ultimamente, só tenho viajado na janelinha. Na janelinha lá de casa. Em tempos de crise, o melhor é viajar a baixo custo e risco. É preciso racionalizar os deslocamentos. Então, é de casa pro trabalho, do trabalho pra casa. O bom é que casa, como trem, carro e avião, tem janela. Então, se não dá pra passar aquele mês inteiro em Paris (idéia que tem me provocado suores frios no meio da noite), fico feliz de  olhar pra onde a vista alcança.

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Eu sou meio januária, adoro uma vista. Talvez ainda demore pra eu ver uma tão emocionante quanto aquele sol nascente no Caminho Inca, pouco antes de Machu Pichu, em que tudo ficou preto e branco e a luz brilhava de baixo pra cima. Ou como o contraluz das gaivotas circundando minaretes no céu alaranjado de Istambul ou os pelicanos ultrabrancos num vôo de meio dia contra o mar ultra-azul de Cartagena.  Mas a janela de casa dá um bom caldo.

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É bonito morar de frente pro mar. Santistas e corintianos adoram. Mas, sem inveja dissimulada, venta muito e quase nunca dá pra ficar na janela ou na varanda.  Então, não dando pra ficar de frente pra Ile St. Louis, fico com o Orquidário mesmo, onde montamos o nosso cafofo, epicentro deste mundo de São Cristóvão.

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Além dos pernilongos, aedes aegyptis, mariposas e algumas baratas cascudas desgovernadas, nossa janela às vezes recebe a visita de um beija-flor, para gáudio de um serial killer que eu crio a pão-de-ló (na foto abaixo, encostadinho num pedaço de sol). Já resgatei um pobre coitado cheio de penas, vivo, mas com os dias contatos, de dentro da boca do elemento. Atordoado, o incauto passarinho estava petrificado e levou uns bons segundos pra perceber do que se livrara. Com os olhinhos arregalados, olhou pra mim, viu deus, bateu as asas e voou com as perninhas completamente bambas. 

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Em outros tempos, a janela com arco-íris serviria a passatempos inconfessáveis e inafiançáveis…

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… hoje, fico feliz de ver o por-do-sol sem risco de alguém ao meu lado aplaudir.

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Pra variar, vou mudar de janela neste fim de semana. Vou olhar o mar do alto do Saco da Capela, Ilhabela.

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Cada um com os seus momentos Tommy

O top da Parada do Mille nos últimos dias tem sido o Live at Leeds, do The Who. Dói os tímpanos. É o meu momento Tommy, o que, em se tratando de The Who, tem tudo a ver. Tommy achando com 19 anos.  Será que é a idade?

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Alô, dona de casa! O Queijo da Serra 2009 chegou!

dsc02704Fotos: Antonio Gravata
Já pensaram se em vez de pamonha e curau caseiro os autofalantes das kombis anunciassem a nova safra de Queijo da Serra? Queijo da Serra fresquinho, de miolo mole amanteigado, ou então meia-cura, concentrado!   Melhor que isso só se a kombi oferecesse também pão alentejano do dia.

Meus amigos da Guarda gostam de provocar a anaconda que trago no ventre.
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Eles pegam o carro no domingo de manhã, sobem a serra…
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…se refestelam na neve…

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 … vão à feira, cheiram o cheirinho do queijo mais perfumado do planeta, voltam pra casa, assam um peixe, bebem cervejas e vinhos, talvez uma saudosa caipirinha, fotografam tudo e mandam pra mim.

Devorei dois Queijos da Serra neste  ano, sem deixar cascas. Graças a esses amigos.  Não quero parecer interesseiro, mas não vejo a hora deles nos visitarem de novo.

Leia também https://omeulugar.wordpress.com/2009/09/28/pequeno-guia-para-subir-a-serra-da-estrela/

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No garrastazu do síndico

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Ah, como era bom…

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