A praga da crase despirocada

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Não adianta explicar. Por mais que o professor Pasquale se esfalfe para ensinar o que é a crase e sugira alguns macetes básicos pra identificar a oportunidade do seu uso, a crase despirocada, uma mutação maligna da crase original, dissemina-se muito mais rapidamente do que as aulas do professor, deixando o vírus da gripe suína À ver navios em velocidade de propagação e número de vítimas.

Minha mulher fica na paranóia (paranóia tem acento?). Confere todas as crases despirocadas. Caça as bicharocas que pululam em faixas, cartazes, letreiros, cardápios, bilhetes, parachoque de caminhão, placa de sinalização. E é duro mesmo se conformar que a escola no Brasil não ensine o Português. Um número imenso de professores não fala nem escreve corretamente. É a República do Tchan.

Quando (eu e a minha mulher) vemos o erro ficamos estupefatos. Normal e diariamente estupefatos. Mas quando a maldita crase despirocada aparece em comunicação oficial, jornais e revistas, a estupefação adquire contornos de ataque epilético.  O mínimo que se espera de um governo é que fale e escreva na língua local e não uma versão a ser consagrada na reforma ortográfica do Ano do Burro, em 3012, segundo o calendário chinês. É condição básica, né? As grandes empresas de comunicação, para onde converge boa parte dos enormes recursos públicos e privados investidos em publicidade, por sua vez, deveriam ter os melhores profissionais, alfabetizados de preferência. Nem sempre é assim.

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Vez ou outra damos de cara com a despirocada numa página nobre. Semana passada a minha mulher me mostrou um suplemento publicitário da Vogue Brasil (eu disse Vogue, o chique no úrtimo da imprensa mundial), aparentemente patrocinado pela ABEST, Associação Brasileira de Estilistas. A capa é um mosaico de fotos, sob o logo Vogue Brasil e o nome da ABEST. Assim que você abre a revista dá de cara com duas páginas em branco, quebrado apenas pelo seguinte dizer:

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A sorte é que não tem crase nem acento em Inglês. Por isso o expediente se salva com galhardia. E em duas páginas recheadas. A Vogue comparece com managing director, editor in chief, fashion coordinator, executive production, fashion production, o escambaution. O editorial board é o morango da cereja, com nomes suculentos como Ignácio de Loyola Brandão, Costanza Pascolato, José Saragoza, Matinas Suzuki e Sig Bergamin.

A escalação do time da ABEST conta com o luxo de um president director, seguido por um corporative vice-president, um executive vice-president e outros 6 vice-presidents além de um chief, dois managers e um coordinator. Marvelous!

A agência Gragnani assina o layout, através de um creative director e mais dois nomes sob a singela rubrica Art.

Acho que a ideia é vender a moda brasileira no exterior. Dou o maior apoio. Bota lá em Inglês o que deve ser em Inglês. Mas não precisa tratar o Português no bico da chuteira, só porque somos o país do futebol.

Acho que é caso pra um recall. Chama quem comprou a revista e dá um exemplar novo, sem defeito. Neste caso, ao menos, o uso de uma palavra em Inglês, recall, traria algum benefício ao leitor  e ainda propiciaria a quem está contaminado pelo despiroquismo craseático, e ainda não percebeu, uma boa oportunidade de se livrar desta sarna ortográfica.

O meu abraço À todos.

Sobre Beto Paschoalini

É o que dizem por aí.
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15 respostas para A praga da crase despirocada

  1. Toni Gravata disse:

    Tens toda a razão para ficares em estado de choque, comigo acontece o mesmo. Infelizmente em Portugal, o país “dono” da língua, também é frequente encontrarem-se atropelos à língua, falada e escrita. E mais, o uso e abuso de palavras inglesas, que têm correspondente português, no meio de textos.
    Fazer o quê? É moda, é chique, é sinónimo de cultura …
    Aguenta Beto! Um abraço

  2. Isabel O., Portugal disse:

    É verdade…
    Até programas ministeriais de apoio a isto e aquilo têm títulos em inglês. Nomes de lojas, anúncios a telemóveis (celulares)… é um horror.
    A última que me está a irritar imenso é a “bolsização” (neologismo, confesso) da linguagem . A partir da linguagem da Bolsa (o barril está a cotar… em vez de ser cotado) há frase como “a exposição inaugura” (o quê?), o que há um tempo seria escrito como “a exposição foi inaugurada”.
    Bj

  3. joaoejeremias disse:

    Daqui prà frente vou ficar àtento ás cràses!

  4. Heloisa disse:

    Beto,
    Você tem razão. São incríveis os sustos que a gente leva por conta da crase mal usada.
    Cheguei ao seu blog fazendo uma pesquisa sobre a Provence e, caso esteja certa, você é o Beto que conheci há alguns anos na PMS, assim como a Teté e a Maristela que conheci na mesma ocasião. Fiquei contente em encontrá-los.
    Eu, com meu marido, estamos numa de vamos ou não conhecer a Provence. Acho que seu relato vai servir para nos dar um bom empurrão, mas tenho algumas dúvidas ainda para esclarecer. Quem sabe, com vocês.
    Seu blog é fantástico. Também sou blogueira, e convido-os para uma passagem pelo meu.
    Beijos.

  5. Beto disse:

    Minhas desculpas ao pessoal aí dos comentários. Ando ausente.
    Toni, abraço e mande ver num pão com chouriço em minha homenagem.
    Isabel, “a exposição inaugura” é mesmo uma coisa complexa. Fico a imaginar a exposição cortando a fita. Coisa de Dali.
    joãoejeremias, você está dispensado das aulas de português, saia da sala.
    Helô, somos nós mesmos e também damos o maior apoio à sua viagem à Provence. .

  6. Arthur disse:

    Como disse Ferreira Gullar: “A crase não foi feita para humilhar ninguém”.
    Comentário de Millôr Fernandes: “Sim, a crase foi feita para humilhar todo mundo”…

  7. Heloisa disse:

    Beto,
    Já estou com as passagens para Provence. Gostaria muito de encontrar com você e com a Teté para conseguir algumas informações. Poderíamos combinar um café, ou algo assim, para batermos um papo. Ok?

  8. Arlete disse:

    Olá Beto, adorei seu post sobre crases despirocadas! É realmente um martírio! Aproveitando, gostaria de saber se vc poderia me passar teu e-m para contato direto? Trabalho na área e queria, eventualmente, trocar umas figurinhas.
    Abç.

  9. Schultze disse:

    Adorei o post, até me inspirei a fazer um blog só de crases “despirocadas” de empresas conhecidas (ou nem tanto). http://naotemcrase.blogspot.com.

  10. Beto disse:

    Grande idéia, Schultze. Gostei do blog. boa sorte.

  11. santista11 disse:

    Beto, você só poderia ser santista mesmo (passei minha infância aí) pra ter um blog desses. ´Parabéns, amo seus textos!
    Nosso idioma é maravilhoso, ensino inglês e comecei a aprender francês, e quanto mais tenho contato com outras línguas percebo como a nossa é sensacional. A gente tem que se orgulhar, mas infelizmente o desprezo com que nossos governantes tratam a educação faz com que vivamos situações como a exposta no seu ótimo post.
    Abraço

  12. Beto disse:

    Virgínia, obrigado pelo carinho. Valeu a visita. Abraço.

  13. Santiago disse:

    Boa!

  14. R. Guerreiro disse:

    (Mensagem da Alemanha)

    Ôi Beto,

    A propósito da problemática tsunâmica do “a craseado” encontrei duas fabulosas regras. Uma é caipira e extremamente cristalina:

    Se nóis vai e vem da,
    Nóis tem que craseá,
    Mas se nós vai e vem de,
    Prá quê craseá?

    A outra é uma verdadeira Lei Áurea acadêmica:

    Na hora que você sentir um desejo nebuloso de acentuar a letra “a”, se sua musculatura facial sofrer uma descontração irreprimível e você sentir sua boca ficar boqueaberta, aí não tenha dúvida: o acento agudo em “á” tem que levar paulada da direita para a esquerda, a fim de ficar “à”.

    Assim não hà mais chance de errà.

  15. Freda Salvador disse:

    Vou apanhar aqui, mas acho que a nossa língua é complexa demais. E talvez por isso tenhamos tanta dificuldade onde colocamos a crase, se usamos o ss ou o ç, um s mesmo com som de z, ch ou x. Já ouvi de conhecidos estrangeiros (americanos, franceses e russo) que o português é o idioma mais difícil para escrever.

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